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A Alemanha e a crise: vitórias pírricas

A Alemanha teve sua primeira «crise», uma longa estagnação econômica entre 2000 e 2005, à qual respondeu com um conjunto de reformas («Agenda 2010») em 2003. Uma lenta recuperação, posterior a 2006, chega a uma parada súbita quando a crise financeira global é deflagrada. Mas a Alemanha suportou a Grande Recessão bastante bem. Muitos observadores consideraram as reformas da Agenda e a força industrial da Alemanha como as causas desse bom desempenho. No entanto, um olhar mais atento revela um quadro diferente e ambíguo. As vitórias da Alemanha custaram um preço alto: desigualdade crescente dentro do país e crises de endividamento no exterior.

A China na África: discurso sedutor, intenções duvidosas

Quando o governo chinês organizou em Pequim a primeira conferência sino-africana em nível ministerial, em outubro de 2000, estabeleceu um antes e um depois nas relações da China com a África. Esta nova empreitada nas relações sino-africanas surpreendeu os tradicionais sócios africanos, que haviam reduzido sua visibilidade, e os emergentes, que estavam reconsiderando suas políticas para a região. A investida da China no continente representa uma série de dúvidas sobre as intenções da potência asiática. Significa mais da mesma coisa? Os padrões de dominação das potências ocidentais serão repetidos? Ou, ao contrário, será estabelecida uma relação de caráter diferente? Gladys Lechini: professora titular de Relações Internacionais da Faculdade de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nacional de Rosario (Argentina). É pesquisadora sênior do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) e diretora do Programa de Relações e Cooperação Sul-Sul (Precsur). Palavras-chave: colonialismo, matérias-primas, democracia, Fórum para a Cooperação entre a China e a África, China, África.

A crise global: brechas que se reduzem. O desafio dos países emergentes

Enquanto a maior parte das economias avançadas sofre os efeitos da crise econômica e financeira, os países emergentes têm preenchido algumas brechas em relação a elas, pelo menos no que se refere ao produto bruto. Sem dúvida, as lacunas associadas com outras variáveis, como renda per capita, investimento em tecnologia e níveis médios de nutrição, continuam abertas a favor do Norte. O conceito de «década perdida», utilizado no contexto da periferia, é cada vez mais aplicável para os países desenvolvidos. Frente a uma crise sem perspectiva de solução, o g-7 repete uma série de expressões de desejos, ao mesmo tempo em que as políticas de ajuste ameaçam provocar efeitos contrários aos buscados para superar as incertezas.

Centros e periferias na circulação internacional do conhecimento

A América Latina fez parte do processo de internacionalização da ciência e se consolidou como um circuito de pesquisa social e ensino universitário no começo dos anos 60. Mas esse circuito regional atravessou etapas de expansão, bem como períodos de contração da autonomia acadêmica, como resultado das ditaduras militares e dos violentos ajustes promovidos durante os anos 90. Este trabalho analisa as novas tensões que surgiram nas últimas duas décadas a partir da estrutura desigual de um sistema acadêmico mundial configurado com base na «universalização» da bibliometria como ferramenta de avaliação da ciência, na supremacia do inglês e na concentração do capital acadêmico em determinados polos.

Estado compensador e novos extrativismos. As ambivalências do progressismo sul-americano

Sem dúvida, a América do Sul, que em sua grande maioria é governada por partidos e movimentos que se autodefinem como progressistas, conseguiu diversos avanços nos últimos anos, geralmente concentrados na redução da pobreza e na retomada de um Estado mais ativo. Apesar disso, parte do sucesso segue paralelamente à consolidação de um modelo apoiado na exploração da natureza – do gás à soja, passando por vários produtos de mineração – e na consolidação de lógicas e práticas extrativistas. O artigo analisa as potencialidades e limites dos novos «Estados compensadores», a diferença entre velhos e novos extrativismos e os crescentes conflitos socioambientais.

Estados Unidos ou o último Estado hegemônico. O poder na era da ascensão e da consolidação do resto do mundo

Há uma década, falava-se da consolidação do poder estadunidense e de um mundo unipolar controlado a partir de Washington. Mas pouco menos de uma década se passou e hoje a narrativa do declínio dos Estados Unidos tem se difundido e fortalecido. Atualmente, no sistema internacional, os debates entre declinistas e antideclinistas são mais de caráter político que acadêmico; em ambos os casos, coleta-se evidência seletivamente para apoiar um grupo ou o outro e prevalece uma versão pouco sofisticada do que é o poder e como ele evolui no sistema internacional. Vivemos num sistema em transição ainda longe de construir um tabuleiro de jogo claro e estável.

Índia: apesar de suas limitações, uma potência emergente

A Índia é ao mesmo tempo um ator, uma temática e um espaço geográfico interessantes e importantes para o resto do mundo em virtude de suas características internas e de sua localização na ordem global. Este artículo analisa seu papel no sistema internacional, a configuração regional e continental, as vulnerabilidades no terreno da segurança, os problemas do desenvolvimento e da globalização, bem como sua dinâmica política, social e cultural. Apesar de suas muitas limitações, seria prudente caracterizar essa nação do Sul da Ásia como uma potência emergente, com capacidades e intenções de dar forma ao sistema internacional.

Irã e América Latina: mais perto por uma conjuntura de futuro incerto

Desde meados da década de 2000, várias nações latino-americanas têm estreitado sensivelmente seus vínculos com o Irã. O presidente Mahmoud Ahmadinejad visitou diversas vezes os países do bloco bolivariano liderado pela Venezuela, e os laços políticos e econômicos têm tomado novos brios. Como foi o processo que permitiu a aproximação de países com histórias, culturas e regimes políticos tão distantes? Que valores os países latino-americanos compartilham com o regime de Teerã? Até que ponto as relações dependem das conjunturas, tanto iranianas como latino-americanas? O artigo responde a essas perguntas e oferece chaves de leitura para contextualizar os novos eixos geopolíticos soberanistas do mundo atual.

O novo desenvolvimentismo e os desafios do pré-sal

Uma das questões no debate atual sobre o significado dos dez anos de governo do PT é se o governo conseguiu implementar um novo paradigma para o desenvolvimento que supere a lógica do Consenso de Washington. Este artigo apresenta alguns elementos do debate em torno do «neodesenvolvimentismo» e coloca ênfase nos gigantescos reservatórios de petróleo em águas profundas descobertos no Brasil em 2007, nos quais o hidrocarboneto se encontra sob espessas camadas de sal. São centrais nessa discussão os papéis do Estado e da Petrobras, a captação da renda petrolífera e as políticas industriais e tecnológicas a partir dos requerimentos de conteúdo local.

O Sul chega ao Norte? Comércio internacional, regulação e seus desafios atuais

O sistema econômico internacional tem passado por importantes transformações na última década. A Organização Mundial do Comércio (OMC), foco de tensões desde a sua criação, passou de um espaço de dominação para um espaço de questionamento por países em desenvolvimento e de consolidação de suas agendas. Como essa organização se redefine atualmente, em um cenário de turbulências, e os desafios que o seu novo diretor-geral encontra são objeto de análise e contextualização neste artigo.

Perguntas e respostas sobre a crise mundial

A crescente complexificação dos instrumentos financeiros dificulta cada vez mais a avaliação das causas, modos de contágio e efeitos diferenciais das atuais turbulências econômicas e financeiras. Este artigo enfoca algumas dessas interações e pretende lançar luz sobre a relação entre o sistema financeiro e a economia real, a parcial desconexão dos países emergentes com relação ao mundo em crise, os riscos presentes e os problemas derivados das respostas implementadas pelos governos da zona euro.

Reconfiguração do sistema mundo e o espaço do Brasil

O decênio que se iniciou em 2003 passará para a História como um ponto de inversão na trajetória socioeconômica brasileira. A vitória da Frente Democrática e Popular conduzida pelo Partido dos Trabalhadores (pt) sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e, na sequência, da presidente Dilma Rousseff, reverteu mais de duas décadas de declínio progressivo da economia nacional estabelecido por políticas neoliberais. A nova etapa reposicionou o Brasil no sistema capitalista mundial, restabeleceu o processo de construção do Estado nacional e trouxe avanços sociais importantes. Reduziu o desemprego, ampliou o emprego formal e combinou o aumento da renda por habitante com a diminuição no grau de desigualdade na distribuição pessoal da renda do trabalho.