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Centros e periferias na circulação internacional do conhecimento

A América Latina fez parte do processo de internacionalização da ciência e se consolidou como um circuito de pesquisa social e ensino universitário no começo dos anos 60. Mas esse circuito regional atravessou etapas de expansão, bem como períodos de contração da autonomia acadêmica, como resultado das ditaduras militares e dos violentos ajustes promovidos durante os anos 90. Este trabalho analisa as novas tensões que surgiram nas últimas duas décadas a partir da estrutura desigual de um sistema acadêmico mundial configurado com base na «universalização» da bibliometria como ferramenta de avaliação da ciência, na supremacia do inglês e na concentração do capital acadêmico em determinados polos.

Centros e periferias na circulação internacional do conhecimento

As comunidades científicas periféricas têm sido frequentemente catalogadas como carentes de autonomia, e assediadas, segundo a época, por distintas forças exógenas: as intervenções estatais, a politização estudantil, o terrorismo de Estado ou a dependência intelectual em relação a modelos estrangeiros. Na década de 1950, as universidades latino-americanas foram criticadas pelo predomínio do sistema feudal de cátedras, que eram consideradas reticentes a articular a docência e a pesquisa1. Na década de 1970, elas eram vistas como «instrumentos políticos» de caráter opositor, gravemente debilitadas e incapazes de se concentrar em suas missões educativas e de pesquisa2.

Essa suspeita não esteve presente apenas nos centros acadêmicos tradicionais que historicamente estabeleceram os critérios «universais» de cientificidade, mas também nas próprias periferias, onde se buscou de maneira obsessiva a ilusão de produzir um conhecimento científico «puro», ideado à imagem e semelhança do mito construído por aqueles centros. Uma corrente nativista, quase telúrica, completou esse trabalho de auto-culpável minoridade, exigindo a esse conhecimento autóctone, ademais, uma essência propriamente nacional.

Durante as últimas duas décadas, e a partir de distintos espaços, tem-se colocado em discussão esse modelo analítico sobre a ciência na periferia. Tem-se refletido muito sobre a íntima convicção de que o conhecimento criado nos Estados Unidos, França ou Reino Unido é «original» (posto que teria surgido em campos de produção de conhecimento «puros», não expostos a interferências externas) e tem-se reduzido a inclinação de medir-nos através dos padrões consagrados por esses modelos3. No entanto, ainda reina uma crença muito abrangente, inclusive visível em algumas críticas à colonialidade do saber, pela qual se supõe que dependência acadêmica implica heteronomia completa, de um lado, e autonomia total, de outro, uma situação da qual só se sairia através da desconexão com o pensamento ocidental.

Visto a partir das periferias, esse diagnóstico implica que teríamos sido objeto de uma sorte de aculturação massiva e que temos exercido o papel de receptores passivos de modelos estrangeiros, uma perspectiva que não condiz com o desenvolvimento intelectual do campo científico-universitário latino-americano no último século. Neste trabalho, veremos em que medida a dominação dos chamados «centros de excelência» tem sido construída com base na universalização do sistema de publicações. Trata-se de um conceito relacional, que se construiu não apenas para dentro, mas com referência ao «atraso» atribuído às comunidades periféricas no contexto do processo de internacionalização do mundo acadêmico que começou no segundo pós-guerra.

A América Latina decididamente fez parte dessa construção e se consolidou como circuito de pesquisa social e ensino universitário no começo dos anos 1960, quando o sistema de educação superior se modernizava, criavam-se agências públicas de fomento à investigação científica e os centros regionais eram ampliados. O circuito atravessou etapas de expansão, assim como períodos de contração e de autonomia acadêmica, como resultado da desinstitucionalização perpetrada pelas ditaduras militares4. Não vou abordar aqui o caráter «latino-americano» desse circuito a partir de uma perspectiva identitária ou filosófica, e sim a partir de um enfoque histórico-cultural e da sociologia reflexiva. Analisarei as tensões que surgem a partir das hierarquias estabelecidas pela estrutura desigual de um sistema acadêmico mundial que foi sendo configurado nas últimas décadas com base na «universalização» da bibliometria como ferramenta de avaliação da ciência, na mercantilização do conhecimento científico e na concentração do capital acadêmico em determinados polos. Tudo isso apresenta novos desafios a um circuito que vem realizando enormes esforços para consolidar sistemas regionais de publicações científicas de acesso aberto, reverter a fuga de cérebros e incentivar a mobilidade acadêmica intrarregional.

Existe um circuito acadêmico latino-americano?

Dizíamos, anteriormente, que o processo de consolidação de um circuito acadêmico regional na América Latina ocorreu na década de 1960. Ele esteve estreitamente vinculado com o aparecimento precoce de um centro periférico que exerceu um peso muito significativo na época: refiro-me ao Chile e seu papel como cosmópolis receptora de exilados e especialistas que se trasladaram para engrossar as filas dos organismos intergovernamentais de criação recente, redes, centros e escolas de pós-graduação regionais, como a Confederação Econômica para a América Latina/Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planejamento Econômico e Social (Cepal-Ilpes), Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/Flacso), Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia (Celade), Escolatina, Centro para o Desenvolvimento Econômico e Social da América Latina (Desal), Instituto Latino-Americano de Doutrina e Estudos Sociais (Ilades), Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), entre outros. Nessa etapa, foram fundadas agências científicas estatais e consolidados sistemas universitários públicos, enquanto os conhecimentos produzidos na região começavam a circular internacionalmente. A massificação das universidades e a modernização da matrícula estimularam a expansão das ciências sociais, uma área particularmente favorecida pelas novas universidades católicas, cujo primeiro auge também aconteceu por volta de 1960.

A criação de escolas de pós-graduação promoveu uma forte circulação intrarregional de estudantes que, pela primeira vez, escolhiam Santiago, México ou São Paulo no lugar de Paris ou Califórnia. As missões estrangeiras foram substituídas por convênios interuniversitários e já era visível, em várias disciplinas, a existência de tradições acadêmicas nacionais. A institucionalização de escolas e institutos de pesquisa foi acompanhada por ajuda externa pública e privada, que se materializou em subsídios para infra-estrutura, bibliotecas e bolsas de formação de pós-graduação. Durante esse período, produziu-se uma expansão da autonomia acadêmica na maioria dos países da América Latina, e uma regionalização da circulação do conhecimento através das revistas latino-americanas, associações profissionais, congressos e fóruns. Os estudos que realizamos no Programa de Investigações sobre Dependência Acadêmica na América Latina (Pidaal) nos permitiram detectar elementos comuns do processo de profissionalização nesse circuito, ligados à «elasticidade» da autonomia institucional e à «latino-americanização» da construção do prestígio científico. Trata-se de uma forma de academicismo militante que foi adquirindo crescente importância no circuito que funcionou com eixo no Chile até o golpe de 1973. Essa politização, longe de impor um efeito de heteronomia geral no campo – como têm sustentado sistematicamente os críticos das universidades latino-americanas –, produziu teorias e estudos empíricos que deram vida a correntes de reconhecido cunho latino-americano, como as teorias da dependência, o estruturalismo cepalino, o colonialismo interno e a marginalidade5. Nem tudo foi um mar de rosas durante esse período de expansão da autonomia acadêmica, como salientamos em outros trabalhos, posto que o desenvolvimento de centros periféricos como Buenos Aires, São Paulo, México e Santiago promoveu também fortes desigualdades acadêmicas intrarregionais e intranacionais, como se observa no caso da Flacso6. No início da década de 1970, a contração da autonomia acadêmica chegou com todas as forças ao circuito através do golpe de Estado no Chile, país que vivia um longo período de estabilidade institucional. As intervenções militares, que foram recorrentes nos países do Cone Sul, tiveram a universidade como um de seus principais alvos de disciplinamento. Produziram um forte processo de desinstitucionalização e esvaziamento de algumas disciplinas – fechamento de institutos e escolas de sociologia, antropologia, jornalismo – e, com diferenças segundo cada país, tiveram consequências diretas nas políticas científicas e de educação superior em geral. No Pidaal têm sido realizados estudos empíricos sobre as consequências dessa contração, que ainda estão vivas nas estruturas científicas de hoje, como o exílio acadêmico, a profissionalização da pesquisa e a desprofissionalização da docência ou a transferência de recursos das universidades para o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) na Argentina durante a última ditadura7.

  • 1. Rudolph P. Atcon foi um especialista da Unesco e do governo dos eua que assessorou governos latino-americanos e a Organização dos Estados Americanos (oea). Planejou e participou da execução de reformas universitárias no Chile e no Brasil. Cabe mencionar, especialmente em relação a este último, que chegou a ser presidente da capes. Ver R. Atcon: «La universidad latinoamericana» em Revista de la Cultura de Occidente tomo vii, 5-7/1963, pp. 1-169.
  • 2. Joseph Ben-David e Carnegie Commission on Higher Education: Centers of Learning: Britain, France, Germany and the United States, McGraw-Hill, Nova York, 1977.
  • 3. Hebe Vessuri, Elena Díaz e Yolanda Texera: La ciencia periférica, Monte Ávila, Caracas, 1984; Frederick H. Gareau: «Another Type Of Third World Dependency: The Social Sciences» em International Sociology vol. 3 No 2, 1988; Rigas Arvanitis e Jacques Gaillard: Vers un renouveau des indicateurs de science pour les pays en developpement, L’Orstom, París, 1992; e Yves Gingras: «Les formes spécifiques de l’internationalité du champ scientifique» em Actes de la Recherche en Sciences Sociales No 141-142, 2002, pp. 31-45.
  • 4. F. Beigel: «Desde Santiago: profesionalización, regionalización y ‘nacionalización’ de las ciencias sociales latinoamericanas» em F. Beigel (dir.): Autonomía y dependencia académica. Universidad e investigación científica en un circuito periférico: Chile y Argentina (1950-1980), Biblos, Buenos Aires, 2010.
  • 5. F. Beigel: «Reflexiones sobre el uso del concepto de campo y la elasticidad de la autonomía en circuitos académicos periféricos» em F. Beigel (dir.): Autonomía y dependencia académica, cit.
  • 6. F. Beigel: «Sur les Tabous Intellectuels: Bourdieu and Academic Dependence» em Sociologica No 2-3, 2009.
  • 7. Paola Bayle: «Emergencia académica en el Cono Sur» em Íconos No 30, 1/2008, pp. 51-63; Fabiana Bekerman: «Modernización conservadora: los designios de la investigación científica durante el último gobierno militar en Argentina» em F. Beigel (dir.): Autonomía y dependencia académica, cit.