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Reconfiguração do sistema mundo e o espaço do Brasil

O decênio que se iniciou em 2003 passará para a História como um ponto de inversão na trajetória socioeconômica brasileira. A vitória da Frente Democrática e Popular conduzida pelo Partido dos Trabalhadores (pt) sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e, na sequência, da presidente Dilma Rousseff, reverteu mais de duas décadas de declínio progressivo da economia nacional estabelecido por políticas neoliberais. A nova etapa reposicionou o Brasil no sistema capitalista mundial, restabeleceu o processo de construção do Estado nacional e trouxe avanços sociais importantes. Reduziu o desemprego, ampliou o emprego formal e combinou o aumento da renda por habitante com a diminuição no grau de desigualdade na distribuição pessoal da renda do trabalho.

Reconfiguração do sistema mundo e o espaço do Brasil

Após registrar uma das trajetórias mais exitosas do capitalismo mundial durante o século XX em termos de expansão de suas forças produtivas e transformação da estrutura social, o Brasil ingressou numa fase de regressão socioeconômica das mais graves de sua história. O que ocorreu no país entre as décadas de 1980 e 1990 pode ser comparado – guardada a devida proporção – aos momentos anteriores de interregno dos antigos ciclos econômicos. Vale recordar, por exemplo, os setenta anos de decadência constatados por Celso Furtado entre o fim do ciclo do ouro e o começo do café na segunda metade do século XVIII1. Ao se contrastar simplesmente o ano 2000 com o de 1980 chega-se rapidamente a conclusões instigantes, como a regressão do Brasil da 8a para a 13a economia mundial. Também fazem parte da difícil situação nacional do final do século XX o aumento do contingente de desempregados de menos de dois milhões para 11 milhões de trabalhadores, a diminuição da participação dos salários na renda nacional de 50% para 39% e a manutenção da pobreza e desigualdade em patamares vergonhosos.

O bloqueio ao longo ciclo de crescimento das forças produtivas iniciado na década de 1930 ocorreu a partir da explosão da crise da dívida externa. Logo no início dos anos 1980, com a opção pelo ajuste exportador e a contenção, por consequência, do mercado interno, a subordinação da política econômica aos interesses dos detentores da riqueza financeira e dos setores geradores de divisas internacionais passou a predominar. O resultado final foi a capitulação do projeto de construção do Estado nacional burguês, especialmente na década de 1990, quando a hegemonia neoliberal internalizou o receituário proveniente do Consenso de Washington.

A vitória da Frente Democrática e Popular conduzida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, na sequência, da presidente Dilma Rousseff, passou a ter, a partir de 2003, duas tarefas principais na retomada do desenvolvimentismo. A primeira associada à reversão do movimento de mais de duas décadas de declínio progressivo da economia nacional estabelecido por políticas neoliberais de caráter neocolonial. A segunda vinculada ao reposicionamento brasileiro no sistema capitalista mundial capaz de restabelecer o processo de construção do Estado nacional.

Dez anos depois, registra-se que o país passou a se encontrar entre as sete mais importantes economias globais, sendo o segundo maior exportador mundial de produtos agrícolas e o sexto na produção global de manufaturas, conforme informações das Nações Unidas. A pobreza e a desigualdade declinaram sensivelmente, ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho apresenta, para alguns segmentos, certa escassez de mão-de-obra, somente comparável ao chamado milagre do regime militar, na primeira metade da década de 1970.

Não obstante o êxito alcançado no cumprimento das duas tarefas principais estabelecidas no último decênio há, ainda, desafios a serem enfrentados, como o exercício da liderança de um novo projeto de desenvolvimento ambientalmente sustentável e civilizatoriamente superior. Tendo isso em vista, o presente artigo retrata o reposicionamento brasileiro neste início do século XXI. Inicialmente destaca a nova geografia produtiva mundial em meio a crise capitalista de dimensão internacional. Na sequência, recupera-se brevemente o reposicionamento brasileiro iniciado a partir dos anos 2000.

Deslocamento da riqueza e a nova geografia do crescimento econômico

Desde o final da década de 1960 se assiste ao aprofundamento do deslocamento da produção de manufatura do mundo para a Ásia, iniciado com o forte desenvolvimento industrial japonês desde o fim do segundo pós-guerra. Posteriormente, com a passagem para a década de 1980, outros países asiáticos, como Taiwan, Singapura e Coreia do Sul, ganharam crescente expressão na produção global de manufatura. Dez anos depois, a China assumiu a proeminência de significativa expansão econômica sustentada pela produção de manufatura mundial2. Em 2010, por exemplo, a China respondeu por quase 15% de toda a produção mundial de manufatura, enquanto em 1990 mal alcançava 2,5%.

As projeções para o ano de 2020 apontam para uma participação da Ásia próxima à da produção de manufatura dos países desenvolvidos. Estes, por sinal, apresentam desde a década de 1990 uma queda continuada na participação relativa da produção global de manufatura. No ano de 2010, por exemplo, o peso dos países desenvolvidos no valor global da manufatura foi de 66,2% ante 81,5% em 1990.

Desde os anos 1980, as economias dos países asiáticos crescem mais rapidamente que as do conjunto do mundo, avançando, com isso, o peso industrial na produção global, bem como adensando suas cadeias produtivas e diversificando suas exportações. Com isso, as economias asiáticas, especialmente a China, aproveitaram a onda da globalização neoliberal para se melhor colocar na repartição da produção global. No caso da América Latina, o desempenho econômico distanciou-se da trajetória asiática3. O processo de abertura comercial e de integração passiva à globalização desde o final da década de 1980 resultou na redução relativa de sua participação na produção global de manufatura, ao mesmo tempo em que terminou reforçando a especialização de sua estrutura produtiva nos setores de maior conteúdo de recursos naturais e montagem industrial. Na virada para o século XXI, a participação relativa da América Latina na produção global de manufatura caiu 13,7%. No ano de 2010 foi de 6,3%, enquanto em 1990 alcançava 7,3% de toda a produção global de manufatura.

Em resumo, a economia mundial vem conhecendo transformações estruturais associadas ao deslocamento do centro dinâmico do planeta, dos países pertencentes à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) aos países não membros. No começo da segunda década do século XXI, por exemplo, o peso dos países não membros da OCDE na repartição do PIB mundial equivaleu aos pertencentes à OCDE. Em 1990, os países da OCDE respondiam por quase dois terços do PIB global. Para o ano de 2020, os mesmos países da OCDE poderão representar somente 44% do PIB global. O agravamento da crise econômica de dimensão global desde 2008 termina por deprimir ainda mais o peso das nações ricas na produção global.

  • 1. Marcio Pochmann: professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos pertencentes à Universidade Estadual de Campinas. Palavras-chave: capitalismo, crescimento, economia social, neoliberalismo, desenvolvimentismo, Brasil.. Sobre as informações e citações circunscritas ao longo do presente artigo, v. M. Pochmann: Desenvolvimento e perspectivas novas para o Brasil, Cortez, São Paulo, 2010; O trabalho no Brasil pós-neoliberal, Liber, Brasília, 2011; e Subdesenvolvimento e trabalho, LTr, São Paulo, 2013.
  • 2. Para maiores detalhes, v. Luciana Acioly et al.: A China na nova configuração global, Ipea, Brasília, 2011; Elias Jabbour: China: Infra-estruturas e crescimento econômico, Anita Garibaldi, São Paulo, 2006; e Carlos Medeiros: «Desenvolvimento econômico e ascensão nacional» em C. Medeiros et al. (orgs.): O mito do colapso do poder americano, Record, Rio de Janeiro, 2008.
  • 3. Ver Ricardo de Medeiros Carneiro: Commodities, choques externos e crescimento: reflexões sobre a América Latina, série Macroeconomia del Desarrollo No 117, Cepal, Santiago de Chile, 2012; Enrique de la Garza Toledo e Julio César Neffa (comps.): Trabajo y modelos productivos en América Latina, Clacso, Buenos Aires, 2010; e Fernando Sarti e Celio Hiratuka: Perspectivas do investimento na indústria, Synergia, Rio de Janeiro, 2010; e Confederação Nacional da Indústria (cni): O futuro da indústria no Brasil e no mundo, Campus, Rio de Janeiro, 1999.