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A crise global: brechas que se reduzem. O desafio dos países emergentes

Enquanto a maior parte das economias avançadas sofre os efeitos da crise econômica e financeira, os países emergentes têm preenchido algumas brechas em relação a elas, pelo menos no que se refere ao produto bruto. Sem dúvida, as lacunas associadas com outras variáveis, como renda per capita, investimento em tecnologia e níveis médios de nutrição, continuam abertas a favor do Norte. O conceito de «década perdida», utilizado no contexto da periferia, é cada vez mais aplicável para os países desenvolvidos. Frente a uma crise sem perspectiva de solução, o g-7 repete uma série de expressões de desejos, ao mesmo tempo em que as políticas de ajuste ameaçam provocar efeitos contrários aos buscados para superar as incertezas.

A crise global: brechas que se reduzem. O desafio dos países emergentes

Em meados do verão boreal de 2011, a revista The Economist chamou a atenção para o seguinte fato:

O PIB real da maioria das economias opulentas ainda se encontra abaixo do nível alcançado no final de 2007. Em contraste, o produto das economias emergentes cresceu ao redor de 20% no mesmo período. As calamidades do mundo dos ricos têm acelerado, de maneira muito clara, a transferência do poderio econômico global para as economias emergentes.1

De fato, a partir de 1998, a contribuição destas últimas economias para o produto bruto global em paridade do poder de compra (PGB/PPC) é maior que a das economias avançadas. Em outras palavras, modificou-se a brecha de produção entre os dois grandes segmentos da economia mundial: atualmente, o aporte do Sul ao produto mundial é maior que o do Norte2.

A Grande Recessão (2007-2009) precipitou essa transferência, na medida em que se manifestou em reduções do PIB de distinta gravidade em praticamente todas as 23 economias avançadas, ao mesmo tempo em que o crescimento de algumas das maiores economias emergentes apenas desacelerou. Se forem examinadas as taxas de crescimento econômico real em 2010 calculadas em paridade do poder de compra pelo Banco Mundial (BM)3, o produto total das 23 economias avançadas naquele ano foi equivalente a 47,2% do produto global, o que supõe uma diferença a favor das economias do Sul de 2,5% da produção mundial medida dessa forma.

No entanto, essa transferência – segundo a formulação do Fundo Monetário Internacional (FMI) – do poderio econômico global para as economias emergentes está longe de ser um fenômeno recente. Ao menos desde 1980, quando o BM começou a calcular as cifras nacionais do PIB em paridade do poder de compra, o crescimento tem sido em geral mais acelerado nas economias do Sul que nas avançadas, e a diferença a favor das primeiras tem aumentado de maneira bastante consistente.

As projeções de crescimento para 2013 feitas pelo BM mostram-se congruentes com a tendência observada nos últimos anos. Nos próximos dois, o crescimento médio das economias do Sul será cerca de quatro pontos maior que o das avançadas. Em suma, como resultado de uma longa tendência, nos últimos anos da primeira década deste século a brecha de produto total foi invertida a favor dos países em desenvolvimento. Outras brechas – como a renda per capita, o investimento em ciência e tecnologia ou níveis médios de nutrição, para mencionar algumas – continuam abertas a favor dos países avançados, embora, em muitos casos, a tendência seja de redução. Assim, na primeira metade do presente século, as diversas distâncias entre o Norte e o Sul serão, cada vez mais, brechas que diminuem.

Uma visão em meados de 2011: atividade e emprego

Por outro lado, o verão boreal de 2011 trouxe consigo uma série de acontecimentos extremamente negativos e desanimadores. Atores-chave do segmento avançado da economia mundial, em particular os Estados Unidos e a União Europeia, entraram em espirais perversas que prejudicaram de diversas maneiras, e com diferentes graus de intensidade, tanto suas perspectivas econômicas e financeiras como a funcionalidade de seus sistemas políticos e condições de governabilidade presentes e imediatas. A crise da dívida, os programas de ajuste da recessão e as manifestações agudas de tensão social – que nas décadas de 1970 e 1980 assolaram diversas regiões do mundo em desenvolvimento, especialmente a América Latina e o Caribe – parecem ter se localizado em alguns países avançados, sobretudo, mas não exclusivamente, na denominada «periferia europeia». O próprio termo «década perdida», utilizado para ressaltar o impacto mais amplo daquelas crises, ajustes e tensões na América Latina, começou a ser empregado em alusão a uma consequência não totalmente descartável, três ou quatro décadas depois, em algumas economias avançadas. A crise da dívida e suas sequelas parecem ter-se trasladado ao mundo desenvolvido4.

O panorama do mundo em desenvolvimento oferecia, em contraste, uma visão geral mais favorável. No começo de 2011, esperava-se que os países em desenvolvimento continuassem empurrando a recuperação econômica global, embora com uma força bastante menor do que a observada em 2010. A expansão esperada nas economias em desenvolvimento – 6% real, um ponto inferior à registrada em 2010 – seria afetada pelo enfraquecimento previsto no setor avançado da economia mundial e pela própria resistência de muitos países em desenvolvimento a reforçar, ou inclusive manter, os estímulos fiscais, a expansão do crédito e as demais políticas anticíclicas empregadas para combater a recessão5. Mais especificamente:

- As perspectivas de crescimento para a África em 2011 permaneciam otimistas, apesar de alguns perigos, e se esperava um crescimento da ordem de 5% real. Entre os fatores positivos, destacavam-se a recuperação da demanda pelas exportações e dos preços dos produtos básicos; maiores entradas de recursos por investimento direto em indústrias extrativas e ajuda ao desenvolvimento; maior atividade no setor de serviços, especialmente em telecomunicações; e uma demanda mais robusta dos consumidores. Essa recuperação ainda precisava se trasladar ao mercado de trabalho na forma de reduções sensíveis do desemprego, sobretudo entre os jovens e os grupos vulneráveis6.- Na América Latina e no Caribe, esperava-se que a recuperação iniciada na segunda metade de 2009, após a crise internacional, fosse mantida em 2001, e que a região crescesse 4,7% graças ao impulso da demanda interna, o que significava um aumento de 3,6% do PIB por habitante e uma redução da taxa de desemprego de 7,3% em 2010 para entre 6,7% e 7% em 2011. Para 2012, em virtude de um contexto internacional menos favorável, previa-se que a região cresceria apenas 4,1%7.

- Para as economias em desenvolvimento da Ásia e do Pacífico, como reflexo da consolidação do processo de reativação econômica, o crescimento previsto era de 7,3% em 2011, ao redor de 1,5 pontos porcentuais menos que no ano anterior, devido à queda das políticas de estímulo fiscal, à adoção de políticas monetárias restritivas e ao fraco crescimento das economias avançadas. A recuperação foi sentida nos mercados de trabalho através da criação de novos empregos, mas ainda havia preocupação com a qualidade dos postos criados e com a vulnerabilidade dos trabalhadores8.

  • 1. «Economic Focus – Why the Tail Wags the Dog – Emerging Economies Now Have Greater Heft on Many Measures than Developed Ones» em The Economist on line, 6/8/2011, www.economist.com/node/21525373.
  • 2. É preciso lembrar que, para essa análise, a revista britânica recorreu à formulação mais tradicional desses conjuntos: a antiga fronteira Norte-Sul que caracterizou os debates econômicos multilaterais nos anos 70 e 80 do século passado, quando o Sul propunha uma nova ordem econômica internacional. Esse conceito reapareceu agora em outros debates: 23 economias avançadas, de um lado, e o resto das economias do mundo, de outro.
  • 3. bm: Global Economic Prospects June 2011: Maintaining Progress amid Turmoil, bm, Washington, dc, 2011, p. 2, quadro 1.
  • 4. V., por exemplo, «Are the Advanced Economies Facing a Lost Decade?», Oxford Economics, Special Report, 7/2011.
  • 5. V. Organização das Nações Unidas (onu): World Economic Situation and Prospects 2011, 18/1/2011, disponível em www.unctad.org/templates/webflyer.asp?docid=14329&intItemID=2068&lang=1. Trata-se de um estudo realizado em conjunto pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (desa), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (unctad) e as comissões econômicas regionais das Nações Unidas.
  • 6. Comissão Econômica para a África (cepa): Economic Report on Africa 2011, cepa, Addis Abeba, 2011, cap. 2, disponível em www.uneca.org/era2011/.
  • 7. Comissão Econômica Europeia para a América Latina e o Caribe (Cepal): Estudio económico de América Latina y el Caribe 2010-2011, apresentação à imprensa, 13 de julho de 2011.
  • 8. Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico: Economic and Social Survey of Asia and the Pacific 2011, resumo executivo, maio de 2011, disponível em www.unescap.org/pdd/publications/survey2011/download/survey2011-summary.pdf.