Coyuntura

Tendências socioeleitorais na Bolívia do caudilhismo

Tendências socioeleitorais na Bolívia do caudilhismo

A decisão do Tribunal Constitucional Plurinacional da Bolívia de autorizar a reeleição irrestrita do presidente e dos demais cargos eletivos marca um ponto de inflexão em um país tradicionalmente refratário à «perpetuação no poder». Além disso, essa possibilidade havia sido rejeitada no referendo realizado em fevereiro de 2016. Diante do novo cenário, a maior parte da oposição passou a denunciar a «ditadura» e até mesmo o «totalitarismo» do governo, exageros que podem representar um sério erro de leitura no futuro próximo. Embora menos popular que antes, Evo Morales continua sendo uma figura política com raiz social e eleitoral, e os espaços para a ação política seguem abertos.

Chile: o segundo suicídio da centro-esquerda

Chile: o segundo suicídio da centro-esquerda

A derrota da centro-esquerda chilena e o retorno ao poder de Sebastián Piñera recolocam a necessidade de um debate profundo sobre a coalizão que marcou a transição democrática no país. O programa reformista de Michelle Bachelet – reformas constitucional, tributária e educacional – perdeu impulso em sua implementação, e a Nova Maioria, herdeira da Concertação, apresentou um candidato fraco e improvisado, ao mesmo tempo em que ganhava força uma nova esquerda que a desafiava. A experiência chilena mostra, em todo caso, problemas dos progressismos em escala mundial, em um contexto latino-americano incerto e marcado por ressurgimentos conservadores.

Tribuna regional e global

Mal-estar no livre comércio / Um novo papel para a OMC

Mal-estar no livre comércio Um novo papel para a OMC

Quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) foi criada, há mais de duas décadas, muitos deram como certo que as promessas da globalização econômica avançariam de forma irresistível e que a liberalização comercial seria sua consequência natural. Contudo, a política comercial continua sendo uma questão em disputa, com importantes consequências distributivas nacional e internacionalmente. Por isso, é necessário redefinir o papel da omc: o livre comércio deve ser complementado com políticas distributivas nacionais justas que limitem seu potencial disruptivo e revertam a guinada rumo ao nacionalismo econômico.

A reforma da tributação corporativa internacional / A perspectiva da ICRICT

A reforma da tributação corporativa internacional A perspectiva da ICRICT

O sistema internacional de tributação de empresas, desenvolvido no início do século XX pelo mundo desenvolvido, tornou-se obsoleto no atual contexto de globalização. Hoje, praticamente a metade do comércio mundial ocorre entre matrizes e filiais de empresas transnacionais, e o setor de serviços representa a maior parte do PIB mundial. Diante dessa realidade, a Comissão Independente pela Reforma da Taxação Corporativa Internacional (ICRICT, na sigla em inglês) realiza desde 2015 mudanças nas políticas tributárias em escala internacional e na institucionalidade vigente.

Tema central

Entendendo o Brasil atual / Polarização, guerras culturais e antipetismo

Entendendo o Brasil atual Polarização, guerras culturais e antipetismo

Desde 2013, o Brasil assiste a uma dinâmica de polarização nas redes e nas ruas, cujo centro simbólico é o Partido dos Trabalhadores (PT). Uma parte da sociedade mobilizada faz do petismo o alvo de suas críticas, enquanto outra responde colocando a narrativa do golpe e defendendo a normalidade institucional. Em meio à intensificação das pautas conservadoras, o Brasil viverá este ano eleições presidenciais especialmente complicadas. O combate espetacularizado contra a corrupção,
punitivo e populista, que atenta contra garantias fundamentais, vai contra a democracia e pode levar a resultados dramáticos, como o fortalecimento da extrema-direita.

A funcionalidade da «ideologia de gênero» no contexto político e econômico brasileiro

A funcionalidade da «ideologia de gênero» no contexto político e econômico brasileiro

A negação do termo «gênero» tem uma função específica no contexto social, político e econômico. Essa negação surge no âmbito do que vem sendo chamado de «ideologia de gênero», uma expressão criada por religiosos para fazer frente aos estudos de gênero com o intuito de manter uma certa ideia de «natureza» mistificada. A intenção deste artigo é analisar o cenário brasileiro e certos aspectos da falácia envolvida nesse discurso.

Antifeminismo on-line

Antifeminismo on-line

As mulheres sempre devem pagar um custo mais elevado que os homens para se expressarem. Por isso, ainda que o antifeminismo preceda as redes sociais, com a chegada da internet surgiram novos repertórios de reação contra as feministas. A violência on-line se materializa por meio de diversas formas de assédio, perseguição e abuso. O clima ideológico propiciado pela «direita alternativa» – racista, xenófoba e machista – alimenta boa parte desse movimento. Mesmo assim, muitas feministas levantam a voz, não se deixam amedrontar e buscam formas de resistir e consolidar os avanços conquistados.

Empreendedores jurídicos como empreendedores morais / Combate à corrupção e moralização da política brasileira

Empreendedores jurídicos como empreendedores morais Combate à corrupção e moralização da política brasileira

A luta contra a corrupção assume hoje uma dimensão moralizadora. Os chamados «empreendedores jurídicos» participam ativamente dos processos de exportação e importação de práticas e modelos de justiça. Tornam-se, assim, agentes de mudanças na ordem global e de reformas institucionais que propiciam a difusão de modelos de políticas e legislações de combate à corrupção no plano internacional, que são interiorizadas por países periféricos como o Brasil. Dentro de um contexto geopolítico, econômico e moral neoliberal, são ainda mais incertos os efeitos dessa «cruzada anticorrupção» sobre a frágil democracia brasileira.

Tecnologia libertadora ou instrumento de propaganda?

Tecnologia libertadora ou instrumento de propaganda?

Notícias falsas, ataques políticos, às vezes automatizados: de repente, as redes sociais começam a ser consideradas perigosas. Na «primavera árabe» o cantar era outro, mas hoje as fake news, e em geral as redes sociais, começam a ser tidas como uma ameaça para as próprias democracias liberais. A correlação entre redes sociais e formação da opinião pública democrática é hoje menos clara, embora os diferentes usos das redes dependam também da realidade «física», da vida que também transcorre off-line.

Fake news: uma oportunidade para a alfabetização midiática

Fake news: uma oportunidade para a alfabetização midiática

As notícias falsas não são um fenômeno novo. A novidade está na amplitude com que elas podem se reproduzir nas redes sociais. Esse fenômeno é conhecido hoje, em vários idiomas, como fake news. A perda de centralidade da fonte e a possibilidade de «viralização» – outro termo de época – diminuem muitas vezes o interesse pela veracidade da notícia e a capacidade crítica de leitura para identificar o que é falso. À medida que grandes parcelas da população se informam pelas redes, tais questões adquirem consequências políticas muito diretas, como foi visto em diversos acontecimentos recentes.

A centro-direita e a «mudança cultural» argentina

A centro-direita e a «mudança cultural» argentina

O triunfo da aliança Cambiemos (Mudemos) nas eleições presidenciais de 2015 permite ver em ação um governo pró-mercado, surgido de uma vitória por estreita margem de votos, que tem o desafio de reorientar as políticas públicas em função de seu projeto de «mudança cultural» ao mesmo tempo em que lida com as demandas e resistências de uma sociedade mobilizada. A mudança em curso ajuda também a estimar os legados do ciclo anterior. Com o caso argentino, surge a pergunta sobre a possibilidade de que a Proposta Republicana (PRO), força hegemônica do Mudemos, possa se constituir como um espaço competitivo representativo da centro-direita em escala nacional.

O dilema de um partido popular reduzido à metade do tamanho original / O SPD deve redescobrir a questão da distribuição

O dilema de um partido popular reduzido à metade do tamanho original O SPD deve redescobrir a questão da distribuição

O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) perdeu metade dos seus eleitores nos últimos 20 anos. A situação é semelhante nos demais países da Europa ocidental, onde a social-democracia obteve, em média, escassos 18% dos votos em 2017. Mas o lugar do spd não é a arquibancada. Está em jogo a efetiva domesticação do capitalismo. Portanto, a social-democracia deve reconquistar seu perfil e sua credibilidade para ajudar a configurar a sociedade de forma mais justa.

Crise de legitimidade nas democracias e religiões / Reflexões a partir da visita do papa Francisco ao Chile

Crise de legitimidade nas democracias e religiões Reflexões a partir da visita do papa Francisco ao Chile

O Chile vive um particular «desencanto» em relação às instituições, após um longo experimento neoliberal. A Igreja não é alheia a esse processo, em que o consumo ocupa um lugar central. Como já advertiu um intelectual que influenciou o pensamento do atual Papa: depois do comunismo, o neoliberalismo se transformou no principal inimigo do catolicismo.

Ensaios

A democracia do século XXI

A democracia do século XXI

A atual crise da democracia não se limita à «crise de representação». As eleições têm hoje menor capacidade de representação por razões institucionais e sociológicas e há mal-estar e desassossego cidadãos. O «povo» já não é apreendido como uma massa homogênea, assemelhando-se antes a uma sucessão de histórias singulares. Para dar conta desse fenômeno, é urgente ampliar a democracia de autorização em direção a uma democracia de exercício, o que requer uma democracia narrativa, com cidadãos iguais em dignidade e reconhecimento. Do contrário, o déficit de representação continuará provocando oscilações entre a passividade e o medo, que com frequência favorecem os chamados populismos de direita.