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Tecnologia libertadora ou instrumento de propaganda?

Notícias falsas, ataques políticos, às vezes automatizados: de repente, as redes sociais começam a ser consideradas perigosas. Na «primavera árabe» o cantar era outro, mas hoje as fake news, e em geral as redes sociais, começam a ser tidas como uma ameaça para as próprias democracias liberais. A correlação entre redes sociais e formação da opinião pública democrática é hoje menos clara, embora os diferentes usos das redes dependam também da realidade «física», da vida que também transcorre off-line.

Tecnologia libertadora ou instrumento de propaganda?

Nota: a versão original deste artigo em alemão, «Soziale Medien: Befreiungstechnologie oder Propagandainstrument?», foi publicada pela Fundação Ciência e Política, Instituto Alemão de Política e Segurança Internacional, em 30 de novembro de 2016. Tradução de Martina Sayer.

Após a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, o papel potencialmente destrutivo das redes sociais para a democracia liberal passou a estar no centro das atenções. Em síntese, as redes sociais criaram um espaço de desinibição que propicia a propagação desenfreada de valores não liberais, inclusive racismo, misoginia e homofobia. O uso manifesto dessas redes por parte da Rússia para influenciar as eleições norte-americanas impactou a reputação de plataformas on-line como Twitter, rendendo-lhes a fama de serem um «instrumento novo, potente e agressivo da política externa». Por fim, o uso de contas falsas que rodam automaticamente no Twitter, os bots (robôs), corroborou ainda mais a visão negativa das redes sociais em virtude do seu impacto sobre a política e sociedade. O espaço virtual foi inundado por propaganda, tanto da ala dos republicanos como dos democratas, durante a campanha presidencial nos eua. Diante desses acontecimentos, a chanceler alemã, Angela Merkel, também enfatizou, em discurso proferido no Parlamento, o perigo que a difusão das fake news pelas redes sociais representa para a formação da opinião democrática.

Essa percepção das redes sociais como instrumentos da assim chamada «política de identidade» (identity politics) e como multiplicadoras de notícias falsas contrasta radicalmente com a euforia em torno das redes sociais que nasceu no contexto da «primavera árabe» no Oriente Médio, em 2011. Na época, os cientistas sociais ainda falavam em tecnologias libertadoras e atribuíam um efeito democratizante ao Facebook e ao Twitter. Essas plataformas eram tidas como ferramentas das sociedades civis em prol de uma mobilização contra regimes autoritários, permitindo a participação política em dimensões inéditas até então.

Endeusadas ou demonizadas: nem uma coisa nem outra, ou um pouco de ambas

Contudo, novos estudos sobre o Oriente Médio e o Norte da África revelam um retrato diferenciado e mais problemático da função real das redes sociais na sociedade e na política. Por exemplo, quando são usadas para fins de propaganda pelos terroristas do Estado Islâmico (ei). Nenhuma das visões sobre as redes sociais está errada, nem as que as enaltecem nem as que as demonizam.

Nossa pesquisa sobre debates no Twitter no mundo árabe evidenciou o quão diversificada ou até mesmo paradoxal é a repercussão das redes sociais sobre os processos políticos e sociais. O efeito específico provocado depende, em grande medida, do contexto local do debate e das redes sociais engajadas neste debate. A análise de debates travados no Twitter, tanto sobre os estupros e as agressões sexuais na praça Tahir em Cairo, no verão de 2014, como sobre os protestos contra o fracking no sul da Argélia, ou ainda sobre os investimentos bilionários da Arábia Saudita no Iêmen, na primavera de 2015, nos mostraram a eficácia ambivalente do Twitter em relação à política e sociedade. Para compreender essa força difusa, é importante perceber que o Twitter está subdividido em muitos espaços de comunicação menores, devido à formação de redes sociais ao longo de diferentes linhas. Apesar do seu caráter transnacional, o Twitter se desintegra em espaços comunicativos nacionais, o que não se deve apenas a barreiras linguísticas ou dialéticas. Nos três debates que analisamos, os Estados nacionais representaram o ponto de referência mais importante. Sempre que foram tratados temas provenientes de outros contextos nacionais, os usuários do Twitter os reinterpretaram no seu próprio contexto nacional. Por exemplo, os usuários libaneses aproveitaram a operação militar dos sauditas no Iêmen para expressar suas próprias lealdades religiosas no seu próprio contexto nacional, o que resultou em um debate separado, embora local, no Twitter. Ambientalistas globais usaram o debate sobre o fracking na Argélia como trampolim para promover a mobilização contra esse método no seu próprio contexto nacional. Porém, nossos estudos de caso apontaram que os temas só passam de um contexto a outro quando encontram solo favorável para repercutir localmente. Eis o motivo do fracasso das tentativas dos usuários egípcios e tunisianos de articular debates contra o fracking nos seus respectivos países.

Quando o Twitter cria pontes transnacionais, isto acontece entre pessoas que já têm a mesma opinião. Na Argélia, o Twitter ajudou a criar redes solidárias entre diferentes grupos marginalizados da periferia e ativistas da capital. Por meio do Twitter, também surgiu uma rede contra o assédio sexual, conectando ativistas em diversos países árabes e ocidentais. Aqui, a tendência predominante foi a formação de «tribos virtuais» confessionais, étnicas, religiosas, ideológicas ou baseadas em valores, as quais se instigavam mutuamente.

As vozes marginais são reforçadas... ou reprimidas

Conflitos do mundo físico não são meramente refletidos nas discussões on-line; costumam, antes, se fortalecer no ciberespaço. O formato extremamente limitado do Twitter obriga os usuários frequentemente a emitir opiniões contundentes. Por conseguinte, pratica-se muito menos moderação nas mensagens no Twitter em comparação com a mídia tradicional. E debates que aparentemente giram apenas em torno de um tema se transformam rapidamente em discussões politizadas, ideológicas e emocionais que expõem traumas históricos, linhas de conflitos sociais atuais e negociações de identidade (nacional). Nos nossos estudos de caso, o Twitter muitas vezes exacerbou noções simplificadas do «outro» ou do «inimigo».Na Argélia, por exemplo, o debate no Twitter acabou acentuando o fosso entre o «regime» e a «população». No Egito, no debate sobre assédio sexual, a linguagem ideologicamente carregada e os conflitos abertos no Twitter entre adeptos do presidente Abdel Fattah al-Sisi e a Irmandade Muçulmana igualmente aprofundaram a clivagem social. Da mesma forma, o debate sobre os investimentos sauditas no Iêmen cimentou os conflitos religiosos na região do Golfo. Não foram as vozes moderadas ou marginais que saíram fortalecidas pelo Twitter, e sim as posições do governo saudita, o que consolidou a hegemonia discursiva da Arábia Saudita nessa rede.

Quanto menor e menos desenvolvida for a comunidade do Twitter na região, mais dominantes serão os ativistas da sociedade civil e as vozes críticas da atualidade. Essas comunidades pequenas ainda existem na Argélia, no Marrocos, na Tunísia e na Jordânia. A situação é outra em países como a Arábia Saudita, onde se encontra a maior comunidade do Twitter em relação à população, o Egito. Com a expansão rápida do Twitter e a sua crescente visibilidade, os esforços governamentais, no sentido de cercear as liberdades digitais e veicular propaganda ativamente, portanto não via bots, também aumentaram significativamente. Desta maneira, as vozes moderadas e os defensores de direitos humanos acabaram sendo marginalizados. Na verdade, isto também ocorreu por causa do aumento do número de usuários logados nesta mídia com a popularidade crescente do Twitter desde 2011.

No entanto, a influência que um usuário podia ter em um debate não foi determinada apenas pela quantidade de seguidores, mas sobretudo pela «qualidade» desses seguidores. Veículos locais e internacionais, funcionários governamentais e grandes organizações fazendo parte de uma rede ajudaram a fortalecer a repercussão de determinadas mensagens e transportá-las para o plano internacional. No caso da Argélia, a comunidade do Twitter local e os veículos internacionais não atuaram separadamente; retroalimentaram-se de forma permanente. Neste caso, uma rede do Twitter composta de ativistas argelinas, ícones do movimento anti-globalização e ambientalistas, assim como meios de comunicação internacionais, contribuiu para que um acontecimento distante do público mundial alcançasse visibilidade internacional.

Os problemas ocorrem off-line

A contracara dessa visibilidade dos debates no Twitter são as tentativas de manipulação. No debate sobre a intervenção saudita, dois usuários, alegando estar em Sanaa (Iêmen) e contando com mais de 100.000 seguidores, começaram a dominar o debate árabe a partir de abril de 2015. Postaram mensagens no Twitter a favor dos sauditas e a difamaram os seus adversários, os houthis (opositores dos sauditas), em Sanaa. Devido ao vasto número de seguidores, sobretudo radicados nos países do Golfo, essas contas puderam influenciar o debate maciçamente. Um discurso favorável aos houthis praticamente não tinha qualquer chance diante da quantidade muito superior de usuários do Twitter dos países do Golfo. Além disso, por trás de uma parte das contas sauditas no Twitter não havia pessoas, e sim bots, que manipulavam a opinião em determinada direção com a sua massa.

Em todo o mundo árabe, a gama de temas e informações tratadas nas redes sociais é bem mais ampla que nas mídias clássicas, em geral controladas pelo Estado e às quais não se pode, via de regra, atribuir uma representação muito fidedigna dos fatos. Apesar de a censura das redes sociais ser bastante pronunciada na Arábia Saudita e no Egito, os opositores continuam encontrando certo espaço no Twitter para se expressar. Nesse ambiente, vozes e reivindicações de grupos marginalizados e ativistas de diretos humanos são intensificadas, de modo que mesmo alguém como Abdel Fattah al-Sisi se viu forçado a reagir frente às agressões sexuais, graças aos debates nas redes sociais em 2014.

Em países autoritários, as posições moderadas e liberais coexistem nas redes sociais com as posturas radicais e antiliberais, e as informações fidedignas sobre processos políticos convivem com a desinformação política e a propaganda radical. Portanto, não surpreende que infraestrutura dessas redes também seja aproveitada nas democracias liberais para influenciar ou manipular as discussões, inclusive por pessoas de tendência antiliberal.

Essa imagem absolutamente ambígua dos direcionamentos políticos e dos efeitos dos debates travados no Twitter mostra que condenar as redes sociais de forma generalizada é tão inadequado quanto exaltá-las. As consequências negativas do Twitter não dependem apenas da plataforma, mas também das posições políticas e sociais dos usuários. Como ambos interagem, as suas influências destrutivas também constituem um sintoma dos problemas que precisam ser enfrentados off-line.