Tema central

Entendendo o Brasil atual Polarização, guerras culturais e antipetismo

Desde 2013, o Brasil assiste a uma dinâmica de polarização nas redes e nas ruas, cujo centro simbólico é o Partido dos Trabalhadores (PT). Uma parte da sociedade mobilizada faz do petismo o alvo de suas críticas, enquanto outra responde colocando a narrativa do golpe e defendendo a normalidade institucional. Em meio à intensificação das pautas conservadoras, o Brasil viverá este ano eleições presidenciais especialmente complicadas. O combate espetacularizado contra a corrupção,
punitivo e populista, que atenta contra garantias fundamentais, vai contra a democracia e pode levar a resultados dramáticos, como o fortalecimento da extrema-direita.

Entendendo o Brasil atual / Polarização, guerras culturais e antipetismo

Junho de 2013 marcou um ponto de inflexão na história brasileira. Nas ruas, convergiram grupos autonomistas, como o Movimento Passe Livre (mpl), a esquerda clássica brasileira nas figuras de sindicatos, movimentos tradicionais ou partidos políticos e pessoas que já utilizaram a estética nacionalista em suas reivindicações. Por outro lado, na multiplicidade das pautas mobilizadas já se encontraram a petição por serviços públicos de qualidade e a questão da moralidade da política com o tema anticorrupção. Entre junho de 2013 e meados de 2016, enquanto a esquerda brasileira não conseguia dar resposta apropriada a estas insatisfações, movimentos identificados como de direita liberal, Movimento Brasil Livre (mbl) e Vem pra Rua canalizaram este sentimento de frustração e descontentamento cidadão contra o sistema político no seu conjunto, em um forte sentimento antipetista. Começava, desta forma, uma dinâmica de polarização nas redes e nas ruas, cujo centro simbólico era o Partido dos Trabalhadores (pt): uma parte da sociedade mobilizada fazia do petismo o alvo de suas críticas, pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e outro setor mobilizado respondia, colocando a narrativa do golpe e defendendo a normalidade institucional e democrática. Neste cenário, grupos como o mbl utilizaram um discurso populista de direita com grandes significantes aglutinadores como antipetismo e corrupção para comunicar e mobilizar grandes segmentos da população, moralizando ainda mais o debate em torno do tema da corrupção e potencializando pautas conservadoras. Uma direita brasileira liberal, a favor de reformas econômicas e sociais de corte neoliberal que, em vez de colocar no centro da agenda a pauta sobre as medidas econômicas liberais, utiliza as estratégias do populismo, a moralização da política e a exaltação do poder judiciário que, em nome da luta contra a corrupção, deve «limpar o Brasil», para convocar a população às ruas. A justiça penal do espetáculo da Lava Jato, que transforma a luta contra a corrupção num elemento de judicialização da política, serve a estes grupos para alimentar e fortalecer um populismo inicialmente antipetista e posteriormente antipolítico, que enfraquece a democracia brasileira e a coloca em risco. Quais são os conceitos que ajudam a definir e caracterizar a atual situação brasileira pós-20131?

Polarização

Como funciona a dinâmica nítida de polarização que, desde 2014, está continuamente presente nas manifestações e nas redes sociais? Um fenômeno relacional, no qual a própria identidade se define a partir do oposto, da negação da identidade alheia. Por um lado, os manifestantes de camisa verde-amarela exigindo o impeachment, para os quais o pt é o partido mais corrupto do Brasil e que definem sua identidade de direita ou conservadora não pelas pautas programáticas, e sim pelo antipetismo, que é o conceito que os une e que dá coesão à sua identidade. Por outro, os manifestantes que se identificam com o campo progressista, com críticas ou não ao papel do petismo e sua dimensão histórica, defendem que o impeachment seria um golpe e, portanto, uma agressão antidemocrática. Entre eles, um grande grupo minimiza a importância da participação do pt nos esquemas de corrupção, defendendo o discurso de que o partido seria vítima de uma confluência de forças entre elites, imprensa e poder judiciário. No centro das narrativas, para ambos os lados, o pt.

Ao longo deste artigo, vou refletir sobre uma série de questões, que caracterizam a conjuntura social brasileira, com base em pesquisas realizadas durante os anos 2015-2017, junto com os professores Márcio Moretto e Pablo Ortellado.

a) A polarização relativa à questão do impeachment e do petismo atinge todos os grupos sociais mobilizados? Ou temos outras dinâmicas de manifestações, que não se encaixam no modelo da polarização?

Hipótese: os jovens brasileiros mobilizados não se encaixam exatamente no perfil da polarização «vermelhos» versus «verde-amarelos».

Durante as manifestações pró e anti-impeachment, aplicamos vários surveys que nos levaram à conclusão de que a idade média dos manifestantes de ambos os lados era de 40 anos, aproximadamente. Onde estavam os jovens? Em maio de 2016, na cidade de São Paulo, houve duas grandes mobilizações, que reuniram um público mais jovem: 14 de maio, marcha pela legalização da maconha, e 19 de maio, passeata dos estudantes secundaristas contra os cortes em educação do governo do estado de São Paulo. Ambos os protestos estudados são formados por uma geração mais nova, que não se define na identidade política polarizada impeachment-golpe, cujo centro organizador é a figura do pt. Estes jovens têm desconfiança generalizada tanto dos partidos como da imprensa. A maioria votou em partidos de esquerda na eleição para presidente (divididos entre o pt e o Partido Socialismo e Liberdade, psol) e se colocam contrários ao impeachment. Os secundaristas mobilizaram-se bastante contra o impedimento: 45,8% deles participaram de algum ato anti-impeachment e 27,8% dos entrevistados estiveram na marcha da maconha. Embora haja rejeição ao impeachment e à mobilização, sobretudo por estudantes, estes grupos parecem não se encaixar na lógica da polarização, nem aderem totalmente à narrativa pt corrupto versus pt vítima. Quase 90% dos participantes de os ambos protestos concordam total ou parcialmente com a ideia de que o pt é corrupto; por outro lado, mais de 90% afirmam que as políticas do pt melhoraram a vida dos brasileiros. Existe um reconhecimento da importância do petismo para o país, mas também se adere à ideia de que o pt se transformou num partido corrupto. Finalmente, mais de 60% concordaram totalmente com a afirmação de que os movimentos sociais deveriam ser autônomos de partidos políticos, prezando a autonomia dos movimentos frente à lógica partidária.b) Como se organiza o atual debate político no Facebook? É um debate polarizado que tem, também no seu centro, a discussão sobre o papel do pt?

Hipótese: o pt organiza e polariza o debate político nas redes sociais entre aqueles com um forte sentimento antipetista e que se organizaram, fundamentalmente, a partir de 2015 e os denominados anti-antipetistas, que reagiram às demandas pelo impeachment, considerado golpe por eles.

Uma cartografia das páginas políticas do Facebook permite-nos identificar a comunidade de usuários, que se informam pelas mesmas páginas. A disputa em torno do papel histórico do pt organizou o campo de disputa do discurso político no Facebook, polarizando os usuários entre antipetistas e anti-antipetistas. Essa dinâmica birrelacional pode ser analisada de maneira mais fina, indicando a forma como cada polo se organiza internamente. Essa análise mais fina mostra a complexidade dos grupos, que ficaram subordinados à disputa em torno do pt. De um lado, as páginas, que puxaram os atos pelo impeachment, organizam o campo em torno dessas três comunidades e disputam essa população mobilizada: grupos liberais, grupos conservadores e políticos tradicionais, que eram oposição. Do outro lado, as páginas associadas ao pt organizam o campo impondo seu discurso sobre grupos identitários, novos movimentos sociais e ambientalistas. Ou seja, mesmo os grupos que se identificam como sendo à esquerda do pt e que não compartilham um discurso petista agrupam-se na polarização contra os grupos antipetistas. Nas páginas políticas do Facebook, o pt é um grande organizador do debate e o centro da polarização. O Facebook é uma importante ferramenta de informação política. O descrédito da imprensa tradicional faz com que cada vez mais brasileiros se formem e informem politicamente pelas redes sociais. Desde 2013 e, fundamentalmente, desde a eleição presidencial de 2014, o que observamos no debate político no Facebook é uma intensa polarização, cujo centro virtual está organizado pelo pt, o qual, por sua vez, organiza os usuários da rede em duas bolhas praticamente incomunicáveis. Os usuários de páginas políticas dividem-se numa relação de oposição similar à relação binária que observamos off-line.

c) Qual o impacto das pautas e narrativas políticas dinamizadas pelos grupos mais organizados na configuração da identidade política da sociedade como um todo? Os debates atuais de maior visibilidade sobre medidas liberais econômicas, conservadorismo, punitivismo, políticas sociais, discurso evangélico, narrativas golpe-impeachment têm ressonância na sociedade não mobilizada?

Hipótese: não há uma correlação exata entre a população paulistana mais ampla e o discurso dos ativistas engajados e mobilizados.

Para testar esta hipótese, realizamos uma grande pesquisa na cidade de São Paulo durante outubro de 2016, com 1.058 questionários, buscando entender se a opinião da sociedade paulistana, frequentemente não mobilizada, correspondia à opinião dos engajados na polarização. O que descobrimos é que essa polarização, que marca absolutamente o debate político dos dois últimos anos, não tem uma réplica exata na população não mobilizada. População que não tem consenso sobre as narrativas de golpe ou impeachment (41,1% concorda que foi golpe e portanto um processo político ilegítimo e 44,2% diz que foi impeachment e, portanto, legítimo), mas que não acredita no discurso da vitimização do pt (só 26,4% pensam que o pt é vítima de uma perseguição da imprensa e do juiz Sérgio Moro) e tampouco compartilha o consenso liberal econômico atual dos grupos organizadores dos protestos pró-impeachment e do governo Temer (88,8% são contrários aos cortes em saúde e educação em tempos de crise econômica, como propõe a política de austeridade de Temer).

Antipetismo

Durante as manifestações de 2015, organiza-se fortemente nas ruas e nas redes uma mobilização conservadora. É importante ressaltar que estes grupos se estruturaram em torno da demanda do impeachment e em protesto contra a corrupção petista. Portanto, são grupos de fato heterogêneos, mas cuja identidade coletiva se define com base em um antipetismo muito presente. Para dar números a esta afirmação, aplicamos um questionário para o grupo manifestante de 26 de março de 2017, em apoio à operação Lava Jato, para entender que pautas e posicionamentos sociais, culturais e morais tinham os manifestantes como denominador comum. Estes grupos, que se definem majoritariamente de direita (31,4%), centro-direita (17,4%), e conservador (47,3% muito conservador, 34,4% pouco conservador) respondem ao questionário de forma pouco coesa (34,8% concordam que a união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família, 48,6% pensam que a escola deve ensinar valores religiosos, 57,2% que feminismo é machismo ao contrário). A unidade de respostas dá-se em torno de três questões: punitivismo (82,6% apoiam o aumento de pena para punir criminosos, 84,6% apoiam a redução da maioridade penal), rejeição aos programas sociais e de redistribuição de renda caraterísticos das gestões petistas (82,2% pensam que o programa Bolsa Família estimula as pessoas a não trabalharem, 75,2% pensam que as cotas não são uma boa medida) e, fundamentalmente, o antipetismo (84,8% definiram-se como muito antipetistas).

Por outro lado, se nas primeiras manifestações de 2015 tínhamos percebido que o antipetismo era o elemento mais evidente, o discurso de negação da política tradicional no seu conjunto e a rejeição do partido político aumentam sua visibilidade cada vez mais. Além do antipetismo, que aparece como grande fator de coerência, o discurso antipolítico, resumido no slogan «faxina geral» do movimento Vem pra Rua, está se transformando num importante fator de coesão para estes grupos. Nesta mesma manifestação, à pergunta «com qual partido político você se identifica», 72,9% responderam que nenhum, seguidos por 11,7% que escolheram o Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) e 6,8% o Partido Novo. Os avanços da operação Lava Jato para outros partidos, além do pt, ajudaram a popularizar a imagem do político corrupto, de tal forma a ter quase uma relação de sinonímia entre os conceitos político e corrupto, o que favorece imensamente candidatos que se apresentam como figuras honestas e «limpas», como o ultradireitista Jair Bolsonaro.

Guerras culturais

Além da polarização antipetista, apresenta-se um outro tipo de polarização, que se define em torno de posicionamentos morais, as denominadas guerras culturais.

Dentro e fora da imprensa, todo debate político, hoje, é dominado por um discurso que coloca, em primeiro plano, temas morais como o combate à homossexualidade e o endurecimento penal e subordina as questões econômicas e sociais a essa visão de mundo punitiva. Estamos vendo no Brasil e em outros países uma expansão mundial das guerras culturais, que tomaram os Estados Unidos a partir do final dos anos 1980. A antiga polarização entre uma direita liberal, que defendia a meritocracia baseada na livre iniciativa e uma esquerda, que defendia intervenções políticas para promover a justiça social, passa a ser não substituída, mas crescentemente subordinada a um novo antagonismo entre, de um lado, um conservadorismo punitivo e, de outro, um progressismo compreensivo.

Costuma-se atribuir a James Hunter2 a identificação precisa do fenômeno e a difusão do termo «guerras culturais» para se referir ao processo pelo qual temas como o direito dos homossexuais, a legalização do aborto, o controle de armas e a legalização das drogas passaram a ganhar proeminência no debate político americano, no final dos anos 1980, opondo «conservadores» a «progressistas». Os conservadores definir-se-iam por um «compromisso com uma autoridade moral externa definida e transcendente», e os progressistas, por uma autoridade moral «caracterizada pelo espírito da era moderna, um espírito de racionalismo e subjetivismo».

Em um influente livro de 1996, o linguista George Lakoff3 concordou com Hunter que o novo antagonismo que se via nos eua opunha visões de mundo baseadas em concepções da autoridade moral. Também observou que as guerras culturais se assentavam no confronto de duas metáforas familiares para a sociedade, isto é, os dois discursos olhavam para a sociedade como uma grande família: uma família com pai rigoroso e uma família com pai carinhoso – e, para cada visão da sociedade como família, esse pai metafórico imporia uma ordem moral. Assim, na perspectiva conservadora, teríamos uma ordem moral punitiva e disciplinar e, na progressista, uma ordem compreensiva.

Na literatura, não há unanimidade sobre o que teria dado início às guerras culturais, mas alguns autores apontam a gênese do fenômeno como uma reação ao questionamento político das normas sociais pela contracultura dos anos 1970, ou à fratura das identidades coletivas proposta pelos novos movimentos sociais e pelo discurso pós-moderno4. Seja como for, parece claro que quem reorganizou o discurso político nesses termos foram os conservadores e que os progressistas ainda precisam se adaptar ao novo terreno de disputa discursiva.

A relação entre discurso moral e político não é nova. No final do século xix e início do xx, os liberais já utilizavam um discurso moral, que justificava a miséria dos trabalhadores pela indolência. Antes, porém, o discurso moral era instrumentalizado pelo político e, agora, parece que ocorre o contrário. Após o início das guerras culturais, vimos uma mudança de natureza do discurso liberal. Desde o pós-guerra, o discurso liberal tinha assumido a forma de um discurso de moderação e bom senso, ao qual só podiam aspirar aqueles que tomavam os fundamentos da sociedade atual como pressuposto e tratavam as questões sociais e econômicas como prosaicos problemas de administração. Após as guerras culturais, ele retomou um caráter de ódio e desprezo de classe que trata os trabalhadores como indolentes, que merecem ser punidos com a pobreza pela falta de industriosidade, capacidade de poupança e empreendedorismo. Pelos mesmos motivos, toda ação social do Estado é vista por esse discurso como complacência socialista com a incompetência e o comodismo. O inverso acontece com o discurso socialista. Se no antigo quadro discursivo o bom senso e o equilíbrio caracterizavam o discurso liberal, o discurso socialista, que colocava em xeque os fundamentos do sistema concorrencial de mercado, era radical por sua própria natureza e era desqualificado pelo establishment como extremista e irrazoável. Já no novo quadro discursivo, no qual prevalece o discurso moral, o caráter compreensivo e solidário do progressismo sugere que o discurso socialista adote o equilíbrio e o bom senso trazidos pela empatia.

Esse antagonismo moral redefine as regras do debate político. Há oitenta anos, Fabiano Harold Laski defendia a ideia de que a penetração política e intelectual do socialismo advinha de sua capacidade de explorar a contradição entre liberdade e igualdade presente no discurso liberal, isto é, liberais e socialistas compartilhavam os valores de liberdade e igualdade, e o pensamento socialista ascendeu demonstrando que a igualdade de poder concorrer no mercado era uma formalidade jurídica sem substância. Assim, o debate clássico, que opunha liberais e socialistas, tinha um fundamento comum de valores, que foi erodido pela cisão em visões morais de mundo incomensuráveis.

Com o intuito de medir o impacto das guerras culturais nos grupos mobilizados, fizemos um levantamento no Facebook durante o ano de 2017 para ver que temas morais estavam sendo mobilizados em ambos os lados da polarização5:

- Campo conservador: «Precisamos punir os criminosos com mais tempo de cadeia», «A pena de morte deve ser aplicada para punir crimes graves», «Menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia», «O cidadão de bem deve ter o direito de portar arma», «Os direitos humanos atrapalham o combate ao crime», «O lugar da mulher é em casa, cuidando da família», «A união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família», «Fazer aborto é sempre errado», «As escolas deveriam ensinar valores religiosos», «Os valores religiosos deveriam orientar as leis», «O Bolsa Família estimula as pessoas a não trabalharem».

- Campo progressista: «Fazer aborto deve ser um direito da mulher», «Não se deve condenar uma mulher que transe com muitas pessoas», «Cantar uma mulher na rua é ofensivo», «A mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada», «Os negros ainda sofrem preconceito no Brasil», «A polícia é mais violenta com os negros do que com os brancos», «Cotas são uma boa medida para fazer com que os negros entrem na universidade», «Dois homens devem poder se beijar na rua sem serem importunados», «A escola deveria ensinar a respeitar os gays», «Travestis devem poder usar o banheiro feminino», «Deveria ser permitido aos adultos fumar maconha».

Polarização moral, polarização petista, as duas resumem a divisão da população mobilizada brasileira, que não consegue encontrar pontos comuns para o diálogo.

Evangélicos

Segundo os censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ibge), em 1991, 9% da população declarava-se evangélica. Já em 2010, data do último censo nacional, os evangélicos representavam 22,2% dos brasileiros. Ao mesmo tempo, a comunidade católica estava em declínio, com 83% em 1991 frente a 65% em 2010. As igrejas evangélicas são importantíssimas na organização da sociabilidade de muitas regiões brasileiras, fundamentalmente periféricas, e estão se transformando também em relevantes atores políticos, como mostra a eleição, em 2016, de Marcelo Crivella (bispo da Igreja Universal do Reino de Deus) como prefeito da cidade do Rio de Janeiro e a centralidade da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso, com 193 nomes de deputados.

Em paralelo às manifestações a favor da operação Lava Jato ou contra ela, aconteceu na cidade de São Paulo, em 23 de março de 2017, a Marcha para Jesus, o maior evento evangélico da cidade, que reuniu mais de dois milhões de pessoas. Com o intuito de entender como este enorme grupo social se encaixa na polarização petismo-antipetismo e se ele se identifica com a bancada evangélica, que tanta aderência tem com o antipetismo, aplicamos 484 questionários.

Tanto manifestações antipetistas como as que protestam contra o golpe e o governo Temer têm pouca representação popular. A título de comparação, na manifestação pró-Lava Jato de 26 de março de 2017, 42,9% dos presentes tinham renda familiar de até cinco salários mínimos. Na manifestação contra a reforma da previdência, em 31 de março, esse percentual era de 55,6%. Na Marcha para Jesus, 75,8% tinham renda nesta faixa.

O «rosto» do Brasil está mais representado na Marcha para Jesus do que nas manifestações das mobilizações polarizadas. Igualmente acontece com a presença dos jovens. Nas manifestações da polarização, a média de idade dos eventos era de mais de 40 anos; na Marcha, porém, 26,7% dos presentes tinham de 16 a 24 anos e 25,6%, de 24 a 34.

A mesma crise de representatividade, que afeta a população brasileira de forma geral, atinge especificamente os setores evangélicos. Os evangélicos presentes na Marcha para Jesus confiam pouco nas principais lideranças evangélicas e nada nos partidos evangélicos. Quando questionados sobre a confiança nas principais lideranças evangélicas, o resultado não é muito promissor: 57% não confiam em Marina Silva (rede), 54% não confiam no pastor Marco Feliciano (Partido Social Cristão, psc), 57% também não confiam no pré-candidato à presidência, Jair Bolsonaro (psl), e 53,9% não confiam no atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Partido Republicano Brasileiro, prb). O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (psdb), próximo da Igreja católica, não tem a confiança de 61% dos entrevistados. Muitos dos entrevistados disseram que confiavam neles como «homens de Deus», mas não como «políticos». Uma maioria de 76,9% disse não se identificar com nenhum partido político. Apenas 7% identificam-se muito com psdb e 5,8%, com o pt. A confiança em legendas como o psc (1,2%) e o prb (0,4%), principais partidos dos políticos evangélicos, é surpreendentemente baixa. A maioria (66,5%) disse não se reconhecer nem como de direita nem como de esquerda. Como em outras manifestações pesquisadas, as identidades políticas investigadas não têm grande adesão. Por outro lado, a maior parte dos entrevistados considera-se muito conservadora (45,5%) ou pouco conservadora (34,5%).

A diferença é que o antipetismo, tão presente nas manifestações anticorrupção (nas quais mais de 80% dos entrevistados declaram-se muito antipetistas), desta vez divide opiniões: 39,9% definem-se como nada antipetistas e 36,8% como muito antipetistas. Luiz Inácio Lula da Silva também se destacou nesta pesquisa com a maior intenção de votos (12,50%), seguido por João Dória (11,56%) e Jair Bolsonaro (8,25%). No entanto, devemos destacar que a maioria dos entrevistados não possui um candidato ou pretende votar em branco/nulo (52,36%).

Conclusões

O Brasil enfrentará, em 2018, eleições presidenciais especialmente complicadas. De todos os fatores aqui apresentados, os crescentes discursos antipolíticos são, talvez, os elementos mais perigosos que ameaçam a já fragilizada estabilidade institucional. A politização da negação da política, fundamentada num combate espetacularizado contra a corrupção punitivo e populista, que atenta contra garantias fundamentais, é um fator contra a democracia e que pode levar a resultados dramáticos, como o fortalecimento da extrema-direita. Entre os representantes dela se destaca Bolsonaro, uma figura com biografia inexpressiva politicamente, mas que no cenário pós-impeachment soube aumentar de maneira exponencial sua base de apoio, com uma retórica populista de direita. Várias pesquisas de intenção de voto o colocam como um dos protagonistas da eleição de 2018.

Por outro lado, o campo progressista encontra também grandes desafios. A reorganização e o fortalecimento dos grupos conservadores, inclusive em muitas regiões periféricas urbanas, torna complexa a tarefa de reconexão política com diversos setores da população. Estes setores foram conquistados pelos discursos demagógicos da luta contra a corrupção e por um crescente populismo de direita, que oferece soluções mágicas sobretudo no âmbito da segurança pública, como podemos ver no caso da intervenção militar no Rio de Janeiro. Como recuperar o diálogo dos grupos que, progressivamente, convenceram-se do discurso da militarização da segurança pública? A tudo isso ainda devemos acrescentar o contexto de uma importante crise econômica, que coloca em questão a política de ajuste fiscal e austeridade. Como recuperar o diálogo com uma população desempregada, que está empobrecendo, vulnerável às medidas neoliberais do governo Temer, mas que acredita na retórica lavajatista de que o pt é o partido mais corrupto da história brasileira?

Corremos o risco de que a eleição de 2018 seja refém de um debate muito superficial e empobrecido, fixado em torno do antipetismo, do debate moralista sobre a corrupção e do populismo militarista da segurança pública. Cabe ao campo progressista resgatar propostas programáticas, que possibilitem um debate mais qualificado capaz de escapar desta lógica moralista que tanto beneficia à direita brasileira.

  • 1.

    Os dados apresentados ao longo deste artigo encontram-se, na íntegra, nas seguintes publicações: E. Solano Gallego, Pablo Ortellado e Márcio Moretto: «‘Guerras culturais’ e ‘populismo anti-petista’ nas ruas de 2017», Notas No 10/2017, fes Brasil, 7/2017, disponível em http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/1... e «2016: o ano da polarização?», Análise No 22/2017, fes Brasil, 3/2017, disponível em: http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/13249.pdf.

  • 2.

    J. Hunter: Culture Wars: The Struggle To Control The Family, Art, Education, Law, And Politics In America, Basic Books, Nova York, 1991.

  • 3.

    G. Lakoff: Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think, The University of Chicago Press, Nova York, 1996.

  • 4.

    A. Hartman: A War to the Soul of America: A History of the Culture Wars, The University of Chicago Press, Chicago, 2015.

  • 5.

    O levantamento consistiu em obter os posts mais curtidos e compartilhados das páginas políticas do Facebook, cuja cartografia polarizada, que foi apresentada anteriormente, oferece um panorama dos temas que mais mobilizaram politicamente a rede social neste ano.