Tema central

O mundo e os indignados, segundo Penny Red

Os chamados «indignados» apresentaram novos repertórios de ação coletiva (como denomina a sociologia) que têm como alvo as grandes corporações e incluem formas inovadoras de organização e protesto. Laurie Penny, ou «Penny Red», conseguiu, a partir de suas colunas jornalísticas, construir uma linguagem capaz de captar e transmitir as novas sensibilidades misturando cultura pop, política radical e feminismo, com tom incisivo e potência narrativa. Nas linhas que se seguem, reproduzimos três de seus textos, escritos no calor dos protestos na Grã-Bretanha e reunidos num livro editado recentemente em espanhol.

Geração, acontecimento, perspectiva Pensar a mudança a partir do Brasil

A vinculação entre a sociologia das gerações de Karl Mannheim e o conceito filosófico de acontecimento habilita um olhar renovado sobre processos como os iniciados em junho de 2013 no Brasil, que deram forma a uma nova geração militante neste país. Mas a generalização de uma concepção perspectivista da política que se pode extrair daí permite também pensar a conjuntura latino-americana sem reduzir as diferentes perspectivas que nela se opõem a esquemas simplistas como «realismo versus idealismo» ou «traidores versus autênticos». É preciso, por um lado, reconhecer que a tensão entre perspectivas é necessária para toda política que se quer transformadora; e, por outro, compreender a incomensurabilidade dos diversos olhares nos momentos de ruptura.

Junho, e a juventude negra?

As manifestações que sacudiram São Paulo em junho de 2013 foram somente o estopim para o início do protagonismo de uma juventude que não se sente totalmente representada pelos partidos. Os jovens estão (re)inventando outras maneiras de fazer política que não passam necessariamente pelo atual sistema político, mas que enxergam a rua como terreno de luta e criação. O artigo problematiza a questão do jovem negro, que ainda sofre com os resquícios de racismo e autoritarismo do passado apesar os recentes avanços sociais. Embora a ditadura militar tenha terminado há quase 30 anos, ela deixou um filhote, a Polícia Militar, que continua criminalizando, encarcerando e matando a juventude negra.

Do altermundismo à indignação Cronótopos do ativismo político juvenil em Barcelona

A onda recente de ativismo juvenil na cena internacional, vinculada ao impacto dos novíssimos movimentos sociais, às reações diante da crise financeira e à expansão das novas tecnologias, expressa-se numa série de eventos cronotópicos, isto é, em acontecimentos emblemáticos que condensam os espaços e os tempos de uma sociedade determinada. Este artigo se aproxima de tais eventos a partir do estudo de caso realizado em Barcelona. A análise permite estabelecer um percurso pelos ativismos políticos juvenis que explica o crescente desencontro entre culturas políticas diferenciadas e a emergência de novas formas de protesto.

A disputa pelo espaço público na América Latina As juventudes nos protestos e na construção do comum

Nos últimos anos tem ocorrido uma série de mobilizações juvenis na América Latina. Essas mobilizações expressam formas contemporâneas da política num sentido amplo, não se limitando a um fenômeno jovem. Nessas dinâmicas, como foi o caso nos recentes protestos no Brasil, destacam-se várias dimensões, tais como a politização dos espaços cotidianos, a territorialização da política, a estetização e culturalização da prática política, e as disputas pelo uso, apropriação e produção do espaço público enquanto comum.

A política dos muitos

Pode-se pensar em um elemento comum para as diversas manifestações que, ao redor do planeta, desenharam um mapa de protestos na última década? Quando as lutas superam verdadeiramente os limites dinâmicos impostos por este novo poder que Michel Foucault denominou de neoliberalismo? Tais aparições multitudinárias conseguem prefigurar elementos constituintes de uma teoria política não neoliberal? O artigo chama essa forma heterogênea de aparição pública de «política dos muitos», na medida em que são fenômenos que extrapolam a individualização neoliberal, abrem a pergunta pelas subjetividades políticas em jogo e dão visibilidade a elementos concretos para a crítica do capitalismo em sua fase neoextrativa.

Reflexões sobre a política pré-figurativa

Como conceber a luta contra as opressões e o sistema atual? Os defensores da chamada «política pré-figurativa» defendem que é necessário «antecipar» a nova sociedade em nossas práticas atuais. No entanto, não há uma correlação direta entre os métodos, a estratégia e as táticas de um movimento de oposição e aqueles do sistema socioeconômico e político que dele surgem e que devem garantir novas formas de democracia, uma reorganização radical do poder e, portanto, da riqueza. Por isso, é necessário (re)pensar o problema do poder, do Estado e da economia sem descartar a política estratégica e sem cair em formas utópicas de pensar a mudança social que frequentemente postulam comunitarismos incompatíveis com a emancipação.

Hannah Arendt e o casamento igualitário A luta pelos direitos lgbt na Argentina

A aprovação da Lei do Casamento Igualitário, no dia 15 de julho de 2010, constituiu um ponto de inflexão nas lutas pelos direitos das chamadas «minorias sexuais». Somou-se à abertura ideológica do governo de Cristina Fernández de Kirchner uma estratégia definida que fez da demanda «inegociável» do casamento o eixo da luta das organizações lgbt. Esse caminho modificou discursos e formas de ação e gerou um amplo apoio social (político, cultural e midiático). Nesse sentido, não se tratou apenas da lei, mas de um processo prévio que conseguiu fazer com que a discriminação por motivos de orientação sexual se tornasse politicamente incorreta.

Pós-zapatismo Identidades e culturas políticas juvenis e universitárias no México

Com a aparição do Movimento #YoSoy132 em 2012, torna-se evidente a diluição do zapatismo nas identidades políticas juvenis e estudantis no México. A nova geração de ativistas não buscou vincular-se com o Exército Zapatista de Libertação Nacional (ezln) em reivindicou explicitamente a cultura política do zapatismo civil e urbano. Ao mesmo tempo, na medida em que o zapatismo anunciou e marcou uma guinada nos formatos da ação coletiva, que posteriormente se generalizaram a céu aberto pelos movimentos altermundialistas, não deixa de haver elementos de continuidade. Ante a ausência de outro referente articulador, o autor sugere a possibilidade de se falar em um cenário «pós-zapatista».

Três atos do feminismo Nancy Fraser e os debates feministas dos últimos 40 anos

Em Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, Nancy Fraser reúne artigos e debates a respeito do feminismo e da sociedade capitalista. Sob os rótulos de «feminismo insurgente», «feminismo domado» e «feminismo ressurgente», a teórica estadunidense retoma uma série de discussões sobre a justiça – incluindo a questão da paridade de gênero –, o Estado e a globalização, e polemiza com algumas versões do feminismo, especialmente em sua faceta culturalista. O livro é, nesse sentido, um chamado à recuperação das arestas mais acentuadas e questionadoras do feminismo neste século.

Mobilizações estudantis na Venezuela Do carisma de Chávez ao conflito em redes

A onda de protestos estudantis iniciada na Venezuela em fevereiro de 2014 oferece continuidades e rupturas em relação à tradição movimentista do país. A principal novidade foi a emergência de um conflito altamente descentralizado e em rede, como consequência da ausência da liderança carismática de Hugo Chávez, a crise de representação no setor opositor e o uso intensivo de redes sociais ante o avanço da hegemonia comunicacional bolivariana. O contexto dos protestos foi a crise econômica e a comoção ocasionada pelo assassinato de uma atriz de novelas, que foi o estopim do mal-estar pela situação de insegurança vivida no país.