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A América do Sul em um mundo multipolar. A Unasul é a alternativa?

Duas lideranças desempenham um papel fundamental na América do Sul e definem duas visões diferentes da integração regional. De um lado está Hugo Chávez, com um olhar geoestratégico e militar; de outro, a diplomacia cautelosa e baseada no desenvolvimento da economia e do comércio impulsionada pelo Brasil, cuja formulação mais ambiciosa é a Uniã:o de Nações Sul-Americanas (Unasul). A segunda estratégia parece se impor sobre a primeira, segundo demonstra o papel deste novo organismo na crise da Bolívia. O artigo argumenta que a Unasul pode vir a constituir-se em uma instância para enfrentar os conflitos na região e substituir progressivamente a Organização dos Estados Americanos (OEA), onde os Estados Unidos mantêm um papel fundamental, mas ainda é necessário que ela adquira uma estrutura institucional capaz de sustentar suas decisões ao longo do tempo.

A América do Sul em um mundo multipolar. A Unasul é a alternativa?

Em seu novo livro The Post-American World, Fareed Zakaria retoma uma análise das forças globalizadoras e das reações nacionalistas que antecipa a crise financeira global com base em dois argumentos particularmente importantes. Por um lado, fala do surgimento de novos centros de poder sem que isso implique, a curto prazo, o declínio dos Estados Unidos como potência estratégica e econômica. Por outro, aponta o ressurgimento («the rise of the rest», em um jogo de palavras que coloca em questão a hegemonia do Ocidente) de um multilateralismo complexo. Esta situação é produzida pela irrupção de novos atores estatais relevantes e pelo crescente papel dos organismos intergovernamentais na governança global, bem como pelo protagonismo de atores não-estatais. Estes adquirem uma forte repercussão como representantes tanto da sociedade global emergente orientada à promoção e à defesa dos bens públicos globais (do meio ambiente até os direitos humanos e a ajuda humanitária), como também de uma sociedade «incivil», que prospera com a criminalidade transnacional e com os fluxos ilegais de narcóticos, armas e pessoas.

Além da análise do impacto da globalização sobre o sistema internacional e da consolidação de um novo mapa geopolítico, Zakaria também indica, a partir de considerações estruturais, o delineamento do mundo que o novo governo americano de Barack Obama enfrentará. Grande parte das tendências esboçadas vai trazer (e provavelmente já esteja trazendo) efeitos indeléveis para a América Latina e o Caribe. Entretanto, seguindo este enfoque, a pergunta-chave é quem está ascendendo («on the rise») na região, em um contexto de novos vínculos econômicos, financeiros e comerciais que dificilmente serão revertidos, mesmo com a severidade da atual crise financeira global.

O novo mapa geopolítico regional, particularmente na América do Sul, responde ao surgimento e à consolidação de novas lideranças e de novos esquemas de articulação e integração regionais funcionais para elas. A focalização dos interesses geopolíticos dos EUA no Oriente Médio e em outras regiões do mundo a partir de 11 de setembro de 2001 possibilitou, somada a outras mudanças, uma maior autonomia regional e o aparecimento de um amplo espectro de governos de orientação progressista e de esquerda na América do Sul. O projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), particularmente depois da Cúpula das Américas realizada em Mar del Plata, tende a se fragmentar em diversos acordos de livre comércio bilaterais e subregionais. Alguns destes acordos, como os da Colômbia e do Panamá, esperam a aprovação do Congresso dos EUA, enquanto o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TCLAN) começou a sofrer as investidas de uma previsível ressaca, evidenciada pela possibilidade de que alguns dos seus pontos básicos sejam revisados. De fato, o TCLAN pode ser eventualmente submetido a uma revisão, apesar do bom entendimento entre os governos do Canadá e dos Estados Unidos, e de que o México tenha tentado renegociar aspectos específicos da relação bilateral com os EUA, especialmente no tocante à imigração e à segurança fronteiriça (entre estes, a Iniciativa Mérida, que também afeta os países centro-americanos). Isto é somado à crescente importância da questão energética e à exploração petrolífera no Golfo do México, crucial para esta relação e para o futuro dos vínculos com Cuba1.

Nesse contexto, uma nova dinâmica e um novo mapa político começaram a se consolidar na América do Sul, a partir de diferentes compreensões e visões da emergente multipolaridade na ordem global. Entre estas visões, com suas respectivas narrativas, duas se destacam.

A primeira é uma visão geoestratégica e militar, carregada de elementos ideológicos, ilustrada pela política exterior de Hugo Chávez. Por meio de uma diplomacia proativa que utiliza os recursos energéticos com iniciativas como a Petrocaribe2, Chávez busca fortalecer sua liderança na América Latina e, por outro lado, assumir um papel global mais relevante através de alianças com Irã, Rússia e China e pela utilização da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) como um fórum de importância mundial. A crise financeira e seu impacto nos preços do petróleo, bem como a crescente fragilidade dos acordos internos que definem a capacidade de Chávez de governar seu país e manter políticas sociais consequentes, ameaçam a curto prazo esta estratégia, da qual o objetivo prioritário continua sendo a construção de um mundo multipolar para fazer face ao unilateralismo e à hegemonia dos EUA, em uma retórica fortemente antiimperialista3.

A segunda visão e estratégia que se desenvolve na América do Sul é multidimensional e se baseia no desenvolvimento produtivo, industrial e comercial. Seu principal promotor é o Brasil, que aspira a converter-se em um ator e referência global a partir da consolidação da sua liderança na região. Para isso, busca articular, de maneira gradual e consistente, os objetivos de Estado com os objetivos de governo4. A efetiva capacidade de assimilar a crise financeira global e de manter, neste contexto, a estabilidade institucional e as políticas sociais, colocará as aspirações brasileiras à prova. Estas aspirações se evidenciam tanto na vontade de promover uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) para assegurar um assento permanente no Conselho de Segurança, como na política ativa de articulação de interesses com o grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China). Além disso, desenvolve uma presença proativa na África mediante diversos mecanismos de cooperação e uma crescente vinculação com a África do Sul.

Ambas as visões e narrativas supõem distintas atitudes com relação aos EUA. Chávez acentua a confrontação ao configurar uma rede anti-hegemônica na região sob sua liderança e em sintonia com a diversificação das relações da Venezuela com outros poderes emergentes, apesar da sua alta dependência do mercado dos EUA como receptor da sua produção petrolífera. O Brasil, em comparação, procura o desenvolvimento de uma convivência pacífica com os EUA e o reconhecimento como interlocutor em uma relação que não ameace suas aspirações regionais e globais. As recentes declarações de Luiz Inácio Lula da Silva na reunião do G-20 sobre a necessidade de reestruturar a arquitetura financeira internacional de modo a garantir uma maior participação dos países emergentes, bem como o telefonema pessoal de Barack Obama ao presidente brasileiro logo após sua eleição, são dois marcos desta estratégia.

  • 1. «Cuba, que atualmente produz cerca de 80.000 barris diários de petróleo pesado, alto em sulfetos – que cobrem metade das suas necessidades internas –, se enfoca agora na grande quantidade de petróleo que acredita-se haver sob o leito marítimo em sua zona econômica exclusiva (zee) no Golfo do México.» Patrícia Grogg: «Cuba-us Thaw Fuelled by Oil?» em www.ipsnews.net, Havana, 31/10/2008.
  • 2. Entre seus beneficiários, a Petrocaribe inclui 18 países da Bacia do Caribe, com a possível incorporação adicional da Costa Rica.
  • 3. Para mais detalhes sobre esta concepção, v. A. Serbin: «Hugo Chávez: Liderança e Polarização» em Luis Fernando Ayerbe (org.): Novas Lideranças Políticas e Alternativas de Governo na América do Sul, Editora Unesp, São Paulo, 2008, pp. 117-151.
  • 4. Sobre este assunto, v. A. Serbin: «Entre Unasur y alba: ¿otra integración (ciudadana) es posible?» en Manuela Mesa (coord.): Paz y conflicto en el siglo xxi: tendencias globales. Anuario 2007-2008, Ceipaz, Madri, 2007, pp. 171-182.