Tema central

Sobre o trabalho de cuidado de idosos e os limites do marxismo

Não é de inovação tecnológica que se precisa para enfrentar a questão do cuidado de idosos. É necessária uma transformação da divisão social e sexual do trabalho e, acima de tudo, o reconhecimento do trabalho reprodutivo como trabalho. Esse é o eixo central deste artigo em sua análise sobre os limites do marxismo e da esquerda radical, que cometem um grave erro ao ignorar esta questão crucial, da qual depende a possibilidade de criar uma solidariedade geracional e de classe. Sem enfrentar esta tarefa, será impossível avançar para um mundo mais igualitário e emancipado.

Sobre o trabalho de cuidado de idosos e os limites do marxismo

Nota: Este artigo, escrito em 2009, é parte integrante do livro Revolución en punto cero. Trabajo doméstico, reproducción y luchas feministas (Traficantes de Sueños, Madri, 2013). Tradução de Car- men Carballal. Uma versão deste artigo em espanhol foi publicada em Nueva Sociedad No 256, 3-4/2015, disponível em www.nuso.org.

Introdução

O «trabalho de cuidados», especialmente no que se refere ao cuidado de idosos, situou-se nos últimos anos no centro da atenção pública nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ocde) como resposta às correntes que provocaram a crise de numerosas formas de assistência e cuidados. A primeira destas tendências foi e é o aumento, em termos absolutos e relativos, da população idosa e da expectativa de vida que, no entanto, não significou o aumento dos serviços de assistência aos idosos1. Também ocorreu um aumento significativo no número de mulheres empregadas de forma assalariada fora de casa, o que provocou uma redução da contribuição destas para a reprodução de suas famílias2. Devemos somar a estes fatores o contínuo processo de gentrificação e urbanização das áreas proletárias, que destruiu as redes sociais e os diversos modelos de apoio mútuo nos quais as pessoas idosas que moravam sozinhas podiam confiar, já que elas contavam com os vizinhos para fornecer-lhes alimentos, ajudá-las com as tarefas domésticas, visitá-las para conversar, etc. Como resultado destas tendências, para um grande número de pessoas idosas os efeitos positivos do aumento da expectativa de vida perderam o seu significado, e elas inclusive se sentem aterrorizadas pela perspectiva da solidão, da exclusão social e do aumento da vulnerabilidade diante dos abusos físicos e psíquicos. Tendo isto em mente, neste artigo refletimos sobre o tipo de ações que podem ser adotadas e por que a questão do cuidado dos idosos está totalmente ausente da literatura da esquerda radical.

O principal objetivo desta análise é lançar um apelo à redistribuição da riqueza social, redirecionando-a para o cuidado de idosos e para a construção de formas coletivas de reprodução social, que permitam fornecer esse cuidado, assim como o atendimento às suas necessidades, uma vez que as pessoas idosas não são mais capazes de fazê-lo por si mesmas e que isto não é feito em detrimento da qualidade de vida dos seus cuidadores. Para que isto aconteça, o trabalho de cuidado de pessoas idosas deve adquirir uma dimensão política e se posicionar dentro da agenda dos movimentos pela justiça social. Também é indispensável uma revolução cultural no conceito de velhice, contra a degradada representação que se tem deste setor, que, por um lado, é equiparado a uma carga fiscal para o Estado e, por outro, age-se como se o envelhecimento fosse um aspecto «opcional» da vida, que podemos superar e inclusive evitar adotando as tecnologias médicas adequadas, assim como os produtos «que aumentam a expectativa de vida» desenvolvidos pelo mercado3. Na politização do cuidado de idosos está em jogo não somente o destino destes, mas também a insustentabilidade dos movimentos radicais, que cometem um grave erro ao ignorar esta questão crucial para a possibilidade de criar uma solidariedade geracional e de classe. Trata-se de uma solidariedade que durante anos esteve na mira de uma inesgotável campanha contrária feita por economistas políticos e governos que identificaram os orçamentos destinados a estes trabalhadores – que recebem, devido à sua idade, pensões e diferentes tipos de subsídios sociais – como bombas-relógio econômicas e uma pesada hipoteca para o futuro dos jovens.

A crise do cuidado de idosos na era global

Em muitos aspectos, a atual crise do trabalho de cuidado de idosos não é uma novidade. Este trabalho sempre manteve uma constante situação de crise dentro da sociedade capitalista, devido tanto à desvalorização sofrida pelo trabalho reprodutivo no mundo capitalista como à visão que se tem das pessoas idosas como seres improdutivos e não como depositárias da memória coletiva e da experiência, tal como eram consideradas nas sociedades pré-capitalistas. Em outras palavras, o trabalho de cuidado de idosos sofre uma dupla desvalorização cultural e social. Da mesma forma que o restante do trabalho reprodutivo, este não é reconhecido como trabalho. Ao contrário do que acontece com a reprodução da força de trabalho, cujo produto tem um valor reconhecido, o cuidado de idosos é estigmatizado como uma atividade que absorve valor, mas não o gera. Por isso, os orçamentos destinados ao cuidado de idosos tradicionalmente foram desembolsados sob um discurso mesquinho que lembra aquele anunciado pelas leis de pobreza do século xix: as tarefas de cuidado dos idosos que não são mais capazes de cuidar de si mesmos ficam, assim, nas mãos das famílias e dos parentes, com escasso apoio externo, na presunção de que as mulheres devem assumir esta tarefa de forma natural como parte do seu trabalho doméstico.

Foi necessária uma longa e intensa luta para obrigar o capital a reproduzir não somente a força de trabalho «em uso», mas todo o necessário para a reprodução da classe trabalhadora ao longo de todo o seu ciclo vital, incluindo a prestação de assistência para aqueles que não fazem mais parte do mercado de trabalho. Entretanto, nem mesmo o Estado keynesiano atingiu este objetivo. Exemplo desta falta de visão é a legislação sobre a previdência social aprovada nos Estados Unidos em 1940 e festejada como «uma das conquistas do nosso século», que respondia apenas parcialmente aos problemas enfrentados pelos idosos, já que vinculava o dinheiro recebido do Estado aos anos de trabalho remunerado e proporcionava ajuda social somente aos idosos em situação de extrema pobreza4.

O triunfo do neoliberalismo agravou esta situação. Em alguns países da ocde, durante os anos 90 foram dados os passos necessários para o aumento do financiamento dos serviços de cuidados domiciliares e para proporcionar formação e benefícios aos cuidadores5. Na Grã-Bretanha, o governo aprovou o direito dos cuidadores a exigir dos empresários jornadas de trabalho flexíveis, para então poder «conciliar» trabalho assalariado e trabalho de cuidados6. Mas o desmantelamento do Estado de Bem-Estar e a insistência neoliberal em que a reprodução é responsabilidade pessoal dos trabalhadores dispararam uma tendência oposta que está ganhando velocidade e que a atual crise econômica sem dúvida acelerará.

  • 1.

    Laurence J. Kotlikoff e Scott Burns: The Coming Generational Storm: What You Need to Know About America’s Economic Future, mit Press, Cambridge, 2004.

  • 2.

    Nancy Folbre: «Nursebots to the Rescue? Inmigration, Automation and Care» em Globalizations vol. 3 No 3, 2006, p. 350.

  • 3.

    Tal como afirmam Kelly Joyce e Laura Mamo, comandada pela busca de benefícios e por uma ideologia que privilegia a juventude, foi desenvolvida uma ampla campanha cujo objetivo é garantir um nicho de mercado propício para transformar os idosos em consumidores, prometendo «regenerar» os seus corpos e atrasar o envelhecimento desde que eles utilizem os produtos e as tecnologias farmacêuticas adequados. Neste contexto, o envelhecimento se tornou quase um pecado, que cometemos e anunciamos em primeira pessoa quando não utilizarmos os benefícios dos últimos produtos rejuvenescedores. K. Joyce e L. Mamo: «Graying the Cyborgs: New Directions in Feminist Analyses of Aging, Science, and Technology» em Toni M. Calasanti e Kathleen F. Slevin: Age Matters: Realigning Feminist Thinking, Routledge, Nova Iorque, 2006, pp. 99-122.

  • 4.

    Dora L. Costa: The Evolution of the Retirement: An American Economic History, 1880-1990, The University of Chicago Press, Chicago, 1998, p. 1.

  • 5.

    ocde Health Project: Long Term Care For Older People, ocde, Paris, 2005; Lourdes Benería: «The Crisis of Care, International Migration, and Public Policy» em Feminist Economics vol. 14 No 3, 7/2008, pp. 2-3 e 5.

  • 6.

    Na Inglaterra e Gales, onde se contabiliza um total de 5,2 milhões de pessoas como cuidadoras informais, desde abril de 2007 é reconhecido o direito dos cuidadores de adultos a exigir jornadas de trabalho flexíveis (ibid.). Na Escócia, o Community Care and Health Act de 2002 «introduziu cuidados pessoais gratuitos para idosos» e também redefiniu os cuidadores como «cotrabalhadores que recebem recursos, mais do que consumidores (...) que devam ser obrigados a pagar pelos serviços». Fiona Carmichael et al.: «Work Life Inbalance: Informal Care and Paid Employment» em Feminist Economics vol. 14 No 2, 4/2008, p. 7.