Conjuntura

Junho de 2013… dois anos depois Polarização, impactos e reconfiguração do ativismo no Brasil

Sejam de direita ou de esquerda, as mobilizações que sacudiram o Brasil em 2013 e 2015 compartilham algumas formas de expressão, ação e organização comuns a muitos movimentos contemporâneos. Estão associadas a uma nova «geopolítica da indignação global». O artigo analisa a fundo as manifestações, deixando de lado as leituras nuançadas da mídia e da academia. Argumenta que as mobilizações massivas de Junho de 2013 produziram uma abertura societária no Brasil. Emergiram novos espaços e atores que levaram a um aumento da conflitualidade no espaço público e a um questionamento dos códigos, sujeitos e ações tradicionais que primaram no país durante as últimas duas décadas. As mobilizações de massa são menos controladas por organizações sociais e políticas, difundidas e reproduzidas de forma viral, sob uma lógica que abre um maior espaço para os indivíduos.

Junho de 2013… dois anos depois / Polarização, impactos e reconfiguração do ativismo no Brasil

Nota dos autores: Devemos o título principal do artigo a Zé Szwako, cuja sugestão serviu, ademais, para a organização de um Seminário com título homônimo em junho de 2015 no iesp-uerj (os ví- deos do encontro estão disponíveis em ). Agradecemos aos colegas participantes pelo debate e aos membros do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (netsal) e do Research Committee on Social Classes and Social Movements da Associação Internacional de Sociologia pelo diálogo e pela construção coletiva.

Introdução

Dois anos após as mobilizações que sacudiram o Brasil em junho de 2013, vários são os balanços realizados no campo intelectual, na política e na sociedade brasileira. Se deixarmos de lado as poucas vozes e visões mais nuançadas, pode-se dizer, de forma muito geral, que duas leituras principais concorrem na academia, nos meios de comunicação e entre os atores políticos e sociais. Um primeiro tipo de interpretações vincula as manifestações de junho de 2013 mais à esquerda (seja a uma visão de aprofundamento democrático ou a uma ruptura de carácter mais radical) e as mobilizações de rua de 2015 à direita (e, consequentemente, a uma guinada autoritária e antidemocrática). Uma segunda visão, enraizada em uma gama muito diversa – e inclusive contraposta – de a(u)tores, entende que as mobilizações de dois anos atrás, a despeito de seu carácter massivo, não passaram de um epifenômeno.

Ambas as leituras são, a nosso ver, problemáticas e insuficientes. No primeiro caso, as mobilizações de 2013 e de 2015 são tratadas como eventos desconexos (ou, no melhor dos casos, relacionados a partir de uma lógica reativa). São reforçadas as diferenças (ideológicas, contextuais e de atores e demandas) entre as duas «ondas» de protesto que não teriam nada ou muito pouco a ver entre si, a não ser algumas bandeiras e o fato de que a direita estaria usando algumas práticas e inclusive certos símbolos habitualmente vinculados à esquerda. Nesta ótica, 2013 teria sido uma insurgência de indignação contra a representação, o sistema político e os políticos de maneira mais geral, enquanto 2015 teria um foco muito mais direto e restrito: o Partido dos Trabalhadores (pt) e o governo Dilma. Por outro lado, o segundo campo de interpretações compreende que 2013 em si nunca teve um potencial profundamente transformador da sociedade e da política brasileira que, de fato, teria se modificado bastante na última década – dentro das (di)visões políticas e dos horizontes normativos, alguns diriam que para bem, e outros para mal. Converge com a leitura anterior o entendimento de Junho como uma «explosão», conquanto os protestos de 2013 sejam vistos como mero grito e estrondo. 2015 corresponderia à polarização, acentuada pelo cenário eleitoral de 2014. Espontaneísmo e fragmentação são palavras-chave destas leituras.

Lidas em conjunto, estas interpretações trazem uma série de perguntas sobre as relações entre as manifestações de 2013 e os protestos de 2015: como reivindicações com teores a priori tão diferentes podem mobilizar símbolos e formas de organização às vezes parecidas? Há alguma continuidade entre as ruas de 2013 e as de 2015? De que tipo? São manifestações diametralmente opostas?

Diante destas questões, disputas e posições, sugerimos neste artigo duas hipóteses concatenadas que aprofundam alguns de nossos trabalhos prévios sobre o tema1. Em primeiro lugar, na indignação difusa das mobilizações de 2013 já coexistiam críticas, repertórios e atores à esquerda e à direita, sempre com posturas polarizadas. Assim, a polarização deve ser lida não como algo exclusivo de 2014 e/ou 2015, mas como resultado do retorno da ação direta e do conflito à política nacional; logo, como parte constitutiva do atual ciclo de protestos no país iniciado dois anos atrás, embora possam ser diferenciados – como faremos mais adiante – graus e momentos de acirramento da polarização social e política. Em segundo lugar, não é possível entender os desdobramentos de junho de 2013 olhando somente para os impactos político-institucionais e político-eleitorais dos protestos. Destarte, torna-se fundamental visualizar os efeitos sociais e culturais, bem como captar Junho não somente como um evento de protesto, mas como um processo aberto e inacabado, que inclui uma ampla reconfiguração do ativismo social.

Argumentamos nesse texto que as mobilizações massivas de Junho de 2013 produziram uma abertura societária no Brasil. Emergiram novos espaços e atores que levaram a um aumento da conflitualidade no espaço público e a um questionamento dos códigos, sujeitos e ações tradicionais que primaram no país durante as últimas duas décadas. Embora com visões e projetos distintos (e, em geral, opostos) da sociedade brasileira, os indivíduos e coletividades à esquerda e à direita do governo mobilizados entre 2013 e 2015 são fruto desta mesma abertura sociopolítica. As formas de ação e de organização por eles adotadas – próprias de uma transformação das formas de ativismo e de engajamento militante no país e no mundo hoje – favoreceram um surgimento rápido, a midiatização e a capacidade de interpelação e expressividade, mas também provocaram tensões e ambivalências em sua própria constituição e nos resultados gerados.

Junho de 2013 e o processo de abertura societária

Participaram das mobilizações de 2013 indivíduos e grupos sociais diversos e com um amplo espectro ideológico2. Ficou patente a indignação difusa, a ambivalência dos discursos, a heterogeneidade das demandas e a ausência de mediação de terceiros e de atores tradicionais, algo também notório em várias mobilizações de massa contemporâneas, a exemplo da Espanha e dos Estados Unidos. A diferenciação dos ritmos, composições e olhares dos protestos nos vários lugares onde ocorreram nos leva à importância de situar as mobilizações em diferentes coordenadas espaço-temporais. Embora o lócus de ação das manifestações fossem os territórios e espaços públicos (através da ocupação maciça de praças e ruas) havia uma conexão prática e simbólica com outras escalas de ação e significação, sejam elas nacionais ou globais3, marcando uma ressonância de movimentos e de subjetividades, bem como dinâmicas de difusão e de retroalimentação.

  • 1.

    B. Bringel: «Miopias, sentidos e tendências do levante brasileiro de 2013» em Insight Inte- ligência, 2013a, pp. 42-51; B. Bringel e P. Pleyers: «Les mobilisations de 2013 au Brésil: vers un reconfiguration de la contestation» em Brésil(s): Sciences Humaines et Sociales No 7, 2015, pp. 7-18.

  • 2.

    André Singer: «Brasil, junho de 2013: classes e ideologias cruzadas» em Novos Estudos No 97, 2013, pp. 23-40.

  • 3.

    B. Bringel: «Le Brésil et la géopolitique de

    l’indignation» em La Vie des Idées, 7/2013; Mar-

    lies Glasius e G. Pleyers: «La résonance des

    mouvements des places: connexions, émo-

    tions valeurs» em Socio: Revue de Sciences So-

    ciales vol. 1 No 2, 2013, pp.59-80.