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Brasil e Estados Unidos depois das eleições presidenciais

Seja qual for o resultado das próximas eleições nos Estados Unidos, o novo governo deveria dar maior prioridade à relação com o Brasil. Por diversos motivos, desde os atentados de 11 de setembro até o conflito no Oriente Médio, George W. Bush não destinou atenção especial à América Latina. A lógica indica que isso deveria mudar e, sobretudo, que o vínculo com o Brasil deveria ser fortalecido: a liderança de Lula, o status de «grau de investimento» concedido pelas agências qualificadoras de risco financeiro, o alto valor das commodities e o papel ativo do Brasil no grupo das potências emergentes fazem com que o país assuma uma importância cada vez maior para a política exterior dos EUA.

Brasil e Estados Unidos depois das eleições presidenciais

É evidente que os Estados Unidos negligenciaram a América Latina durante a presidência de George W. Bush. Há muitas razões para isso: os atentados de 11 de setembro de 2001; a incapacidade de garantir segurança satisfatória no Afeganistão; a decisão de invadir o Iraque; a constante violência no Oriente Médio; etc. Mas a verdade é que a região mudou dramaticamente – para melhor em alguns casos, mas não em outros – nos últimos oito anos. Uma importante transição está sendo levada a cabo em Cuba. Governos antiamericanos foram eleitos em alguns países. As esperanças de reforma oferecidas pelo «Consenso de Washington» desvaneceram-se. O objetivo de estabelecer uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) não se concretizou. Os EUA e a União Européia se viram no lado oposto ao dos países de mercados emergentes nas negociações de comércio global, enquanto a esperança de uma conclusão para a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) também falhou.

Neste contexto, a próxima administração – seja ela democrata ou republicana – deveria dar prioridade ao Brasil. Sob a liderança do presidente Lula, o Brasil tem emergido de forma lenta, mas inquestionável, como um líder regional e, seletivamente, como um ator global (global player). Ainda não se sabe se a Casa Branca encontrará tempo para dedicar ao Brasil a atenção que ele merece, tendo em vista vários itens de agenda pendentes para 2009: duas guerras, uma profunda recessão econômica e uma sensação de crise social cada vez maior. Mas há fortes razões para que a nova administração considere o Brasil um ator importante. Primeiro, ele recebeu o grau de investimento (investment grade) de duas das três principais agências de classificação de risco, o que o abriu para novos fluxos de investimento estrangeiro. Segundo, Brasil está a ponto de se tornar um ator importante nos mercados energéticos globais. E, terceiro, como principal ator econômico da região, o governo Lula oferece um exemplo de disciplina fiscal e estabilidade macroeconômica invejado por muitos de seus vizinhos. Certamente há numerosos desafios no caminho do Brasil, mas existe um amplo otimismo de que a próxima administração a assumir o cargo em Brasília, em 2010, estará em condições de abordar efetivamente a próxima etapa da agenda de reforma, seguindo as conquistas do governo Lula.

O jogo de ratings

O jogo de ratings tornou-se uma variável fundamental para os países em desenvolvimento que buscam atrair investimento externo. Em sua forma mais simples, as agências de risco americanas – Standard and Poor’s (S&P), Fitch e Moody’s – monitoram o desempenho econômico dos principais mercados emergentes e conferem um rating que representa a visão da agência sobre sua capacidade de satisfazer as obrigações financeiras internacionais (ou a soberania, no jargão dos investidores). Até que um país em desenvolvimento receba um grau de investimento de uma ou mais das três agências, os fundos de pensão e outros investidores institucionais não estão autorizados a investir no país. O analista de crédito da S&P que anunciou a decisão sobre o Brasil afirmou que «essa nota reflete a maturidade das instituições brasileiras e da política monetária, como evidenciado pela melhora fiscal e da dívida externa e também pelo avanço na tendência de perspectivas de crescimento».

O rating não representa um julgamento sobre a política social, o sistema judiciário, eleições justas, etc, o que é um mal-entendido comum. Na verdade, trata-se de uma decisão bastante restrita, mas fundamental para as economias de desenvolvimento rápido. O rating recebido pelo Brasil (BBB) está na posição mais baixa entre as classificações do grau de investimento. As agências de risco vão monitorar o desempenho fiscal do Brasil sobre parâmetros correntes e decidir, com o tempo, se o país merece um novo upgrade ou – se o Brasil escorregar em políticas macroeconômicas ruins – se merece um downgrade. A S&P também enfatizou que

a política fiscal e seus indicadores são as maiores fragilidades de crédito do Brasil (...) [e] as medidas políticas para reduzir o nível de, e a rigidez do, atual gasto do governo, ou ambos, poderiam reforçar a postura fiscal brasileira e contribuir para um maior declínio das taxas de juros reais, com conseqüências positivas para os investimentos e o crescimento, além de uma redução mais rápida no peso da dívida do país.

Com o grau de investimento concedido pela Fitch e a S&P, é provável que a Moody’s também faça o mesmo em breve. Uma quarta agência, a DBRS do Canadá, também conferiu um grau de investimento ao Brasil em 5 de junho de 2008. Ao fazê-lo, a DBRS afirmou:

As expectativas de tendências estáveis da DRBS são de que o governo brasileiro continuará implementando uma política macroeconômica prudente após as eleições [municipais] de outubro e as eleições presidenciais de 2010. A tendência também incorpora a visão de que uma economia mais estável oferece condições para melhoras posteriores nas dinâmicas da dívida e uma queda de médio prazo na média das taxas de juros reais. Em conjunto com um Banco Central independente, que adotou uma postura preventiva, a posição do Brasil como um exportador líquido de comida e combustíveis reduz o risco de inflação nos próximos meses.

As avaliações das agências de classificação de risco abrem uma nova perspectiva para as possibilidades de desenvolvimento do Brasil. Também são um passo importante para o país na medida em que permitem que ele se junte aos seus estados parceiros do BRIC – Rússia, Índia e China – como um dos 14 países cujo rating da dívida em moeda estrangeira foi elevado em virtude do grau de investimento.Apenas cinco anos atrás, Goldman Sachs, o proeminente banco de investimento de Nova York, cunhou o termo «BRICS». Em uma atualização do conceito, Jim O’Neill, chefe de pesquisas econômicas globais do Goldman Sachs, afirmou:

Estas quatro economias em desenvolvimento têm a população de um tamanho que lhes permite, individualmente, ser tão grandes quanto as maiores economias do mundo nos próximos 30 anos. Se somarmos seu potencial de produtividade a suas populações, o Produto Interno Bruto (PIB) dessas quatro economias poderia exceder o do G-7 em 2035. Nenhuma outra grande economia em desenvolvimento tem esse potencial.