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As duas esquerdas

Após a Guerra Fria, muitos partidos da denominada «família da esquerda latino-americana» modernizaram suas doutrinas, afastando-se do socialismo real e buscando aprofundar a eqüidade social e a democracia. Mesmo assim, a esquerda não é homogênea. Existe outra corrente de inspiração radical que atua através do personalismo, do autoritarismo e do controle férreo dos poderes públicos, colocando-a no limite da democracia formal. Embora o auge da esquerda não pareça conjuntural nem efêmero, as diferenças de estilo e conteúdo que afloram perante a hegemonia estadunidense são uma prova para sua vocação democrática e sua perdurabilidade.

As duas esquerdas

Uma viragem copernicana em direção à esquerda está acontecendo no continente latino-americano e caribenho. A partir do decano de todos os governos, o cubano de Fidel Castro, o uruguaio Vázquez, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, a Guiana de Bharrat Jagdeo, a Argentina de Néstor Kirchner, o Chile de Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, a Venezuela de Hugo Chávez, o Panamá de Martín Torrijos, a República Dominicana de Leonel Fernández, a Nicarágua de Daniel Ortega e a Bolívia de Evo Morales, já são onze os regimes considerados de esquerda na região. Se acrescentarmos a isto, e como um fenômeno aparentado, que em El Salvador a Frente Farabundo Martí de Liberación Nacional controla o Parlamento e a maioria das prefeituras, é possível dizer que estamos na presença de uma tendência histórica, de uma mudança profunda no humor político do continente e não de episódios isolados, quase coincidências dispersas no tempo. Algumas delas têm sido Cuba (1959), Chile com Salvador Allende (1970) e a Nicarágua com o sandinismo (1979).

Os povos do continente, massas urbanas e rurais, além dos partidos tradicionais e das prédicas de seus dirigentes, estão colocando suas esperanças e expectativas no campo esquerdo do espectro político. Após décadas de ditaduras militares desenvolvimentistas e democracias populistas ou neoliberais, o balanço oferecido em conjunto – evitando todo maniqueísmo e sem equiparar umas com outras nem nos deter nos matizes específicos –, tem sido um legado de degradação institucional, corrupção e crescimento econômico precário e contraditório, que conduz a sociedades mais injustas e desiguais no planeta, em permanente crise social e instabilidade política.

Falsos dilemas

Por paradoxal que pareça à primeira vista, este fenômeno é inseparável do colapso do império soviético. Com o seu desaparecimento, e junto com ele a lógica da Guerra Fria, os movimentos e partidos progressistas do mundo – particularmente os da América Latina e do Caribe, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos –, já não esbarram nesse teto que colocava em suas aspirações o implacável determinismo das «esferas de influência» e que derivava do «equilíbrio do terror» entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e os EUA. Ambas superpotências tinham muito cuidado para não permitir, em seus respectivos âmbitos geopolíticos, a emergência de governos que tivessem uma mínima possibilidade sequer de servir, de uma forma ou de outra, à estratégia global do arquiinimigo. Além disso, uma regra não escrita da confrontação era limitar o protesto sobre os abusos cometidos por cada parte em «sua» esfera a meras formalidades diplomáticas. Nem a URSS nem os EUA mostraram-se dispostos a apertar os botões nucleares pela «defesa» da Hungria, Checoslováquia, Polônia ou Afeganistão, por um lado; nem da Guatemala, Santo Domingo, Nicarágua ou Chile, por outro. Subentendia-se que cada superpotência tinha o «direito» de impedir – e inclusive de destruir, se o impedimento não fosse possível – a instalação de fórmulas políticas em países de «sua» área de influência que não se ajustassem aos respectivos paradigmas geopolíticos e geoestratégicos. Embora este cenário tenha sido perturbado por Cuba, que se declarou socialista em 1961, ajustando-se ao modelo soviético – como conseqüência de um processo inesperado que surpreendeu os EUA, colocando-o perante um fait accompli –, a crise dos mísseis (outubro de 1962) levou a um acordo que, se por um lado tolerou a permanência do governo revolucionário, por outro anulou qualquer possibilidade de que o território cubano pudesse ser utilizado pela URSS para fins militares. Também deixou em evidência que as esferas de influência de cada parte eram intocáveis. Claro que também estava implícito o «direito» de cada superpotência de respaldar e até promover movimentos políticos afins no «outro lado» – o que não significava que ambas também não pudessem abandoná-los à própria sorte se eles comprometessem o equilíbrio.

O mundo era dinâmico e ambas as superpotências o sabiam. A lógica era a de que esse dinamismo não excedesse os limites que cada império considerava invioláveis para sua segurança: os EUA invadiram Santo Domingo, propiciaram o «pinochetazo» no Chile e forneceram armamento aos contras na Nicarágua. De forma semelhante, a URSS invadiu Hungria, Checoslováquia e Afeganistão, e promoveu o golpe de Jaruzelski na Polônia. A África e o Sudeste asiático constituíam uma sorte de «terra de ninguém», onde os dois grandes blocos se confrontavam de forma vicária, sem que isto afetasse o equilíbrio das esferas de influência, qualquer que fosse o desenlace do enfrentamento. Assim, as guerras da Coréia, Vietnã, Zaire, Angola e Etiópia não alteraram o statu quo do planeta.

Tudo isto mudou com o desaparecimento da URSS. Os policymakers norte-americanos deixaram de enxergar os governos da esquerda da América Latina e do Caribe como uma ameaça aos seus interesses estratégicos. Já não havia um grande rival que inspirasse esse temor. Há agora muito menos paranóia e menos síndrome do Dr. Strangelove (quadro neurológico em que os membros do paciente parecem adquirir vida própria) entre aqueles que tomam as decisões nos EUA. Mesmo assim, após o desaparecimento das ilusões de uma Nova Ordem mundial – denominação dada à Pax Americana –, e sobre o hegelo-fukuyâmico «fim da História», o mundo se complicou novamente. Os EUA destacaram, em escala latino-americana, a guerra contra o narcotráfico. Foi declarada uma guerra mundial ao terrorismo. Estes inimigos globais, mesmo assim, não estão encarnados em nenhuma grande potência com ogivas nucleares. Desta forma, no continente americano, o espaço para políticas e governos não necessariamente complacentes com Washington não foi fechado da mesma forma que durante o longo meio século da Guerra Fria. Não existe, pelo menos até agora, uma nova dialética entre blocos planetários de poder. Nos tempos da URSS, os EUA jamais teriam invadido o Iraque, que está ao lado da outrora grande potência comunista. Agora, por sua vez, mobiliza as tropas por todo o mapa-múndi. A «esfera de influência» norte-americana é mundial, mas, não estando ela ameaçada por uma hecatombe atômica, existe uma margem muito maior de manobra para os governos não alinhados com Washington.