O Brasil sob a polarização: balanço e perspectivas
Nueva Sociedad 322 / Marzo - Abril 2026
O Brasil caminha rumo às eleições de 4 de outubro de 2026, com Luiz Inácio Lula da Silva buscando a reeleição e Flávio Bolsonaro como o principal adversário. Desde seu regresso ao governo em 2023, o mandatário brasileiro obteve alguns avanços, mas resta saber se isso será suficiente para garantir uma nova confirmação de sua liderança nas urnas. Uma retrospectiva desses últimos anos oferece alguns pontos de reflexão importantes sobre as batalhas já em curso.
Introdução
Na última década, a democracia no Brasil esteve sob pressão, passando por diversos períodos em que foi questionada, ameaçada e até mesmo erodida internamente1. O último e mais simbólico acontecimento nesse sentido foi a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, poucos dias após o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a condenação dos envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, pelo Supremo Tribunal Federal (stf). Ainda é cedo para afirmar se isso representa um ponto de inflexão, mas a decisão histórica do stf de condenar o ex-presidente e diversos generais é certamente encorajadora em um país com longa tradição de impunidade.
O cenário político continua agitado. A situação do Brasil em 2025 se caracterizou por tensões entre os três poderes do Estado, polarização política e incerteza econômica – elementos que geram fortes doses de incerteza. Recentemente, um relatório da Polícia Federal, fruto de uma extensa investigação, revelou a existência de um plano, apelidado de Punhal Verde Amarelo, cujo objetivo era assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes2. A proximidade das eleições presidenciais de 2026, previstas para outubro, exacerba ainda mais as disputas e intensifica a campanha eleitoral. A relação entre o governo e o Congresso Nacional, especialmente com o chamado «centrão» – um grupo informal de parlamentares de diferentes partidos cuja principal característica é o extremo pragmatismo e a ambição por cargos e recursos –, enfrenta diversos desafios. O apoio, ainda que parcial e minoritário, como tem ocorrido ao longo do atual governo, é fundamental para garantir a governabilidade. A ruptura com a coalizão governista de partidos como União Brasil e Progressistas (ambos membros do centrão, que formaram uma federação com vistas às eleições de 2026 e contam com uma bancada de 109 deputados federais – a maior da Câmara – e 14 senadores) é um exemplo disso, afetando a estabilidade da coalizão e a relação entre o Executivo e o Legislativo na última fase do governo Lula. Isto traz novos desafios para o presidente da República, cujo mandato termina em 31 de dezembro de 2026. Cabe destacar também a judicialização: questões que deveriam ser resolvidas no âmbito político acabam sendo levadas ao Judiciário, especialmente ao stf, que por sua vez adotou uma postura mais ativa na tomada de decisões que afetam a política interna e, ocasionalmente, até mesmo a política externa.
O ritmo acelerado da política internacional também traz consigo mudanças geopolíticas importantes e coloca em xeque antigos acordos e alianças. No âmbito econômico, a preocupação com as contas públicas e a sustentabilidade fiscal pressiona o governo, especialmente após a desaceleração do crescimento em 2025 e o aumento da dívida pública. Além disso, há avanços e desafios no âmbito social que assumem novo significado na presença de um Poder Legislativo com enorme protagonismo político e com uma força inclusive orçamentária sem precedentes na história republicana. Por fim, os militares são outro ator que não pode ser negligenciado e que merece nossa reflexão sobre o que se pode esperar – ou não – em 2026. Assim, examinando as dimensões externa, política, econômica, social e militar, tentaremos compreender a caleidoscópica e desafiadora atualidade brasileira, buscando construir um panorama do que poderá ocorrer ao longo de 2026.
O panorama externo
A aceleração da história, como alguns historiadores denominam o período atual no qual múltiplos processos globais acontecem de forma interconectada, intensa e imprevisível, também tem tido repercussões no Brasil e em suas relações com o mundo. O presidente Lula reforçou seu compromisso com o Sul global, originalmente concebido durante seus anos no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2010, 20103, sem prejuízo das alianças tradicionais com os Estados Unidos, a União Europeia e os países vizinhos da América Latina, entre outros.
Sem pretendermos esgotar o tema, eventos como a cúpula do g-20 em novembro de 2024 no Rio de Janeiro (que marcou o fim da Presidência brasileira do grupo), a Presidência do brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ao longo de 2025 e a do Mercado Comum do Sul (Mercosul) desde julho de 2025 – na qual o Brasil buscou de forma insistente concretizar a assinatura do postergado acordo de livre comércio com a ue –, sem esquecer a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (Conferência das Partes, cop30), realizada em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, dão uma ideia da intensa agenda de política externa do Brasil nos últimos meses do terceiro ano de governo de Lula. Com relação à cop30, o Brasil buscou, por meio da agenda ambiental, reativar um outrora poderoso ativo diplomático: alcançou uma redução no desmatamento em comparação com 2024, pelo segundo ano consecutivo, com uma diminuição de 32,4% em relação a 20234, e demonstrou, em termos gerais, uma maior preservação de seus seis biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal).
O governo tem sido com frequência criticado por manter laços estreitos com os países membros do brics – grupo que agora inclui muito mais países do que aqueles que deram origem à sigla –, vários deles, de fato, autocracias. Mas Lula respondeu que se trata de alianças pragmáticas que priorizam benefícios econômicos e diplomáticos. A posição oficial do Brasil tem sido a de não se aliar ideologicamente com esses regimes, buscando, em vez disso, fortalecer a autonomia estratégica do país e o multilateralismo no cenário global, caracterizado pela erosão da democracia liberal em diversos países. Outros apontam uma contradição nisso, visto que a política externa do terceiro mandato de Lula se concentra na promoção e no fortalecimento da democracia, inclusive com a criação de um mecanismo permanente de diálogo para coordenar sua defesa, anunciado em março de 2024 após a visita do presidente espanhol Pedro Sánchez a Brasília, e que atualmente conta com a participação de vários países.
É um momento de declínio do multilateralismo no sistema internacional e de recrudescimento das relações de poder entre os Estados – guerra entre a Rússia e a Ucrânia, conflito entre a Israel e a Palestina, descrito por Lula como «genocidio», e ataque israelense-estadunidense ao Irã – e de piora na deterioração das relações diplomáticas desde o retorno de Donald Trump à Presidência da maior potência econômica e militar do mundo, em janeiro de 2025. No caso do Brasil, numa clara tentativa de ingerência, o presidente dos eua tomou medidas unilaterais contra o país nos âmbitos econômico, comercial e diplomático, devido aos processos judiciais contra seu aliado Jair Bolsonaro. O resultado tem sido uma maior dependência do Brasil em relação à China, seu maior parceiro comercial desde 2009, que atualmente absorve cerca de 25% das exportações brasileiras e representa cerca de 40% do superávit comercial do país5. Trata-se de uma consequência indesejável para Brasília, que preferiria manter uma distância pragmática entre Washington e Pequim, negociando vantagens estratégicas e investimentos conforme seus interesses nacionais. Após esses eventos, o gigante asiático anunciou investimentos bilionários até 2032, abrangendo setores essenciais da economia, como mobilidade, energias renováveis, tecnologia, mineração e semicondutores (muitos desses investimentos já estão em andamento).
A lista de sanções dos eua já começou a ser revisada com o anúncio de exceções significativas. Há sinais de Trump a Lula (iniciados na abertura da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2025) recordando que o Brasil é um ator regional muito importante – uma das dez maiores economias do mundo –, além de ser o segundo maior detentor de terras raras do planeta, atrás apenas da China, e um importante fornecedor de alimentos para os eua em alguns setores. No entanto, ainda não sabemos quais serão as repercussões futuras. Até mesmo o modelo de defesa brasileiro, alinhado ao da Organização do Tratado do Atlântico Norte (otan), começou a ser reconsiderado, embora nenhuma decisão efetiva tenha sido anunciada ainda.
O cenário político
Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro para cargos públicos em 2023 (até 2030) e sua condenação por trama golpista a mais de 27 anos de prisão, a oposição buscou um novo líder, gerando tensões políticas no período pré-eleitoral. Em ordem de proximidade e importância, os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), Paraná (Ratinho Júnior), Minas Gerais (Romeu Zema) e Goiás (Ronaldo Caiado), e até mesmo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, tentaram ocupar seu lugar. Por fim, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-mandatário, será um dos candidatos à Presidência do Brasil, apoiado por seu pai.
O processo de impeachment contra Bolsonaro resultou em sanções contra o Brasil, incluindo uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os eua, a suspensão de vistos para ministros do stf e membros do governo Lula (estendendo-se a seus familiares) e a aplicação da Lei Magnitsky (criada para punir estrangeiros por graves violações de direitos humanos e práticas corruptas). O ex-presidente Bolsonaro foi condenado à prisão, enquanto Trump continua qualificando os acontecimentos como uma «caça às bruxas» e tenta interferir diretamente na política e na Justiça brasileiras.
Cabe relembrar, ainda que brevemente, a tentativa de golpe de janeiro de 2023 e suas repercussões na atualidade. Em 8 de janeiro daquele ano, o Brasil foi surpreendido pela invasão – e a vandalização – do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, por apoiadores de Bolsonaro, com o objetivo de impedir um novo mandato de Lula.
Naquele dia em que a democracia foi ameaçada, os indignados com a derrota nas urnas, que estavam acampados em frente ao quartel-general do Exército desde o revés eleitoral, pediam o cancelamento das eleições, a intervenção militar, o retorno do ai-5 (um conjunto de medidas decretadas pela última ditadura para consolidar seu poder) e a destituição do ministro do stf Alexandre de Moraes6. Uma parte significativa da turba foi rapidamente condenada, enquanto as sentenças contra seus líderes foram anunciadas em 11 de setembro de 2025, no julgamento da Ação Penal (ap) 2668, pelo stf. A sentença incluía como acusados os oito membros do Núcleo 1 da tentativa de golpe, ou Núcleo Crucial, segundo a Procuradoria-Geral da República (pgr)7. Destes, sete réus foram condenados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e destruição de patrimônio tombado.
Mesmo antes do veredito e do anúncio das sentenças, o centrão fez circular no Parlamento uma proposta de anistia para os envolvidos nos eventos de 8 de janeiro de 20238. Isso se alinha a uma longa tradição brasileira de impunidade para esse tipo de crime, como se viu durante o período de redemocratização do país. As pesquisas indicam que a maioria da sociedade rejeita uma anistia, mas deputados e senadores apresentaram diferentes formatos e propostas (mesmo em sua forma mais «suave», por meio de penas reduzidas). Cabe ressaltar que essa proposta mantém acesa a chama da polarização. Além disso, com a proximidade das eleições, a posição de Lula como favorito está rodeada de riscos. Das nove eleições presidenciais realizadas desde o retorno da democracia, em 1985, em quatro casos os candidatos que lideravam as pesquisas um ano antes acabaram derrotados nas urnas. Diferentemente das democracias onde a previsibilidade é a norma, no Brasil a volatilidade é estrutural. O sistema de representação proporcional por lista aberta, a fragmentação partidária, a instabilidade econômica, os frágeis vínculos partidários e o alto grau de ambivalência ideológica explicam esse fenômeno. A ciência política internacional estabelece que, em eleições nas quais o mandatário tem 40% ou mais de aprovação, há 75% de chance de reeleição. Lula está exatamente nesse patamar. Seu governo mantém um índice de aprovação em torno de 45%, e pouco mais da metade do eleitorado avalia o desempenho pessoal do chefe de Estado como «bom/excelente» e «regular». É uma posição de equilíbrio instável: qualquer movimento pode empurrá-lo para dentro ou para fora de sua zona de conforto estatística9.
Atualmente o presidente brasileiro, que vinha sofrendo uma queda persistente em seus índices de aprovação, começou a recuperar uma parcela significativa de sua popularidade após os episódios de ingerência protagonizados por Donald Trump10. Invocando a soberania e afirmando que ela é inegociável, Lula e seus ministros usam bonés azuis com o lema «O Brasil é dos brasileiros» e a bandeira do Brasil, em contraste com os bonés vermelhos com a inscrição «Make America Great Again» e a bandeira dos eua, juntamente com a de Israel, utilizadas por uma parte importante da direita brasileira desde o início de 2025. O governo lançou o Plano Brasil Soberano, que destinará 40 bilhões de reais (cerca de 7,6 bilhões de dólares) para compensar os exportadores pelas perdas causadas pelo aumento das tarifas americanas em vigor a partir de agosto de 2025, e se reposicionou com o lançamento de uma nova marca governamental que mudou «Brasil: União e Reconstrução» por «Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro».
No entanto, Flávio Bolsonaro se aproxima de Lula nas pesquisas para um eventual segundo turno11. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que a disputa será entre «Lula e Fávio, e ponto». Assim, o pleito colocará Lula novamente frente a um Bolsonaro, com o final completamente aberto.
A decisiva arena econômica
Enquanto a política permanece incerta, a economia emerge como a arena decisiva onde a batalha eleitoral será travada. De 1,5% durante o governo Bolsonaro (2019-2022), o crescimento médio do pib subiu para 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, já sob a presidência de Lula. Mas em 2025, além da frágil situação fiscal interna, o cenário internacional trouxe novas instabilidades que, somadas às altas tarifas de Trump, causaram uma desaceleração da economia. Resultado: o crescimento em 2025 foi de 2,3%, e o Banco Central e o mercado projetam um crescimento de 1,5% para 2026. E, nesse horizonte, pairam ainda muitas nuvens carregadas.
Embora a taxa de desemprego esteja em seu nível mais baixo na série histórica (em torno de 5,5% da população economicamente ativa), a renda média dos trabalhadores continue crescendo e, em 2024, o Brasil tenha atingido um stock de cerca de um trilhão de dólares em investimento estrangeiro direto (um recorde na série histórica do Banco Central, com os eua liderando com mais de três vezes o investimento do segundo colocado), há outros dados que devem ser levados em consideração para se obter um panorama mais claro de como a economia poderá afetar a sucessão em 2026. Com a dívida bruta do governo (incluindo obrigações federais, estaduais e municipais) em torno de 78% do pib e um déficit em conta corrente equivalente a 3,5% do pib, o Banco Central justificou a manutenção das taxas de juros em torno de 15%, inibindo assim o consumo, a produção e a expansão das atividades produtivas. O marco fiscal, sancionado em 2023 para substituir a regra anterior de teto de gastos, acumulou quase 20 exceções em dois anos, como resultado da pressão do Executivo e do Congresso Nacional12. Com cada exceção, a regra perde credibilidade. Mas existem outros números ainda menos animadores: 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes (ou seja, 43% dos adultos, o maior índice desde o início da pesquisa); a taxa de juros do cartão de crédito rotativo supera há muito tempo os 450% ao ano (e a inadimplência ultrapassa 60%), em uma economia com inflação anual em torno de 5%. A sensação de esgotamento e a dificuldade que uma parcela considerável da sociedade enfrenta para vislumbrar uma saída complicam ainda mais o panorama e levam a respostas sociais que agravam a situação atual. A busca por uma solução nas apostas eletrônicas (bets) tornou esse cenário ainda mais desafiador e sombrio: a porcentagem de brasileiros maiores de 16 anos (ou seja, aqueles já aptos a votar) que relatam ter feito algum tipo de aposta subiu de 24% em outubro de 2024 para 36% em setembro de 2025, dobrando o índice de endividamento devido aos jogos de azar online e drenando recursos do setor de consumo13.
Em suma, existem problemas macroeconômicos e microeconômicos que podem ter impacto em 2026, e o governo atual não tem nem a vontade política nem a maioria parlamentar para alcançar soluções estruturais e duradouras. Além disso, há uma clara tensão entre a «ala técnica» liderada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a «ala política» encabeçada pelo ex-Chefe da Casa Civil, Rui Costa, ambos membros do Partido dos Trabalhadores (pt) e ambos presidenciáveis, no que diz respeito aos rumos da agenda econômica. Da mesma forma, a promessa de reindustrialização não se materializa, e o setor agroindustrial responde por grande parte do crescimento econômico. Vale sempre lembrar que a sensação de bem-estar é mais determinante do que a curva do pib, e aí reside um problema central que o atual governo deve enfrentar nas próximas eleições.
O (sempre desafiador) âmbito social
Em um país como o Brasil, marcado por uma desigualdade estrutural e estruturante de sua sociedade, com uma das maiores concentrações de renda do planeta, a questão social, sempre volátil, surge como uma variável importante.
Em 2022, Lula foi eleito com a promessa de resgatar a democracia e incluir os pobres no orçamento da União e os ricos no sistema de imposto de renda (apesar da alta carga tributária, que é fundamentalmente regressiva). Nos dois primeiros anos (2023-2024), houve um crescimento de 18% da classe média (de 32,8 milhões para 38,6 milhões de pessoas) e uma queda de 33% no contingente classificado como «miseráveis» (de 19,3 milhões para 12,9 milhões).
Apesar dos indicadores positivos, Waldir Quadros, economista da Universidade Estadual de Campinas, destaca que a popularidade do governo não condiz com os dados: «Eu trabalho com essa base de dados e essa metodologia há mais de 20 anos. É a primeira vez que vejo essa desconexão, porque, quando há um aumento da mobilidade social, normalmente melhora o reconhecimento do governo por parte da população»14.
O Brasil registrou um avanço histórico na luta contra a pobreza. Em dois anos, o número de famílias em situação de vulnerabilidade no Cadastro Único diminuiu 25%. Eram 26,1 milhões de famílias em maio de 2023, e 19,56 milhões em julho de 2025. Isso representa uma melhora na vida de 6,55 milhões de famílias. Individualmente, 14,17 milhões de pessoas saíram da pobreza, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social.15 Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (fao) anunciou que o Brasil havia saído novamente do Mapa da Fome16, o que ocorre quando o risco de desnutrição é inferior a 2,5% da população (o país havia retornado a esse mapa durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, mesmo antes da pandemia global de covid-19, que agravou a situação). O retorno da política de aumento do salário mínimo, com reajustes anuais reais acima da inflação, sem dúvida também contribuiu para essa situação. No início de outubro de 2025, foi aprovada uma isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês (aproximadamente US$ 950), que entrou em vigor em janeiro de 2026. Trata-se de uma melhora significativa em relação à faixa de renda atual, em que a tributação começa em torno de 3.000 reais (US$ 570), beneficiando diretamente 15 milhões de pessoas.
O programa Bolsa Família (criado durante o primeiro mandato de Lula) foi completamente reformulado, ampliando sua cobertura. O governo sabe que precisa de programas sociais concretos para ser competitivo em 2026 e, além da já mencionada isenção do imposto de renda, planejou iniciativas como Gás do Povo (que garante botijões de gás gratuitos para 17 milhões de famílias) e a Luz do Povo (que oferece energia elétrica gratuita para usuários do Cadastro Único em situação de vulnerabilidade), entre outras. Na área da saúde, o governo ampliou o programa Mais Médicos, o Brasil Sorridente (programa odontológico) e o Agora Tem Especialistas, que agiliza consultas e exames no âmbito do Sistema Único de Saúde (sus). Na educação, aumentou o investimento em mensalidades para o ensino integral e criou o programa Pé-de-Meia, que incentiva os alunos do ensino médio a concluírem o ano letivo com auxílio financeiro de até 1.750 dólares para aqueles que forem aprovados nas três etapas e prestarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Além disso, às vésperas do ciclo eleitoral, o governo promete mobilizar energias para tentar aprovar uma emenda constitucional que aboliria a jornada de trabalho 6x1 (o regime de trabalho padrão no Brasil, em que seis dias de trabalho são seguidos por um dia de descanso), além de implantar a tarifa zero para o transporte público (o que isentaria os usuários do pagamento da passagem).
No entanto, a sensação de uma melhoria na qualidade de vida não está garantida e, até o momento, muitos desses avanços (em sua maioria pontuais e não estruturais) – e sua sustentabilidade a longo prazo – são vistos com desconfiança por grande parte da sociedade brasileira. A margem de manobra do governo é bastante reduzida: cerca de um quarto dos gastos não discricionários está nas mãos do Legislativo por meio de emendas fiscais, o que aumenta a falta de transparência, a corrupção, a dispersão e a falta de coerência nas políticas públicas, além de enfraquecer a capacidade do Executivo de estabelecer a agenda.
A politização dos militares
A transição na área da Defesa de Bolsonaro para Lula foi particularmente tensa, com nomeações tardias para o Exército, a Marinha e a Força Aérea, e com os comandantes militares nomeados pelo presidente Bolsonaro recusando-se a entregar seus cargos na presença do recém-eleito comandante supremo e sendo absolutamente tolerantes com os extremistas de direita que continuavam se manifestando em frente aos quartéis em favor de um golpe militar. Essa foi a única área da equipe de transição sem membros designados por Lula, que nomeou José Múcio, político de direita que mantém diálogo com Bolsonaro, como novo Ministro da Defesa17. Ainda assim, por exemplo, o novo comandante do Exército, Júlio Cesar de Arruda, permaneceu menos de um mês no cargo, já que o chefe militar manteve uma postura corporativista e desafiadora diante da necessidade de recuperar a confiança pública em um Exército questionado18. Como já mencionamos, a tentativa fracassada de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o plano Punhal Verde Amarelo – concebido em novembro de 2022, com equipes formadas por militares das Forças Especiais, os chamados kids pretos, que vigiavam o cotidiano e os itinerários do ministro, do presidente e do vice-presidente com a intenção de assassiná-los – e militares de alta patente envolvidos em atividades ilícitas, culminaram na histórica condenação de 11 de setembro de 2025, na qual, pela primeira vez na história do Brasil, oficiais superiores e generais foram condenados por um tribunal civil. De todo modo, os quartéis permanecem muito politizados e ainda simpatizam com o ex-presidente Bolsonaro, e não há efetivamente nenhum controle civil democrático ou direção política exercida pelo poder civil sobre esse instrumento de força do Estado.
Considerações finais
Independentemente do rumo e do aspecto que a conjuntura política assumir em 2026, a polarização continuará sendo uma realidade, já que ela interessa aos dois principais líderes da atualidade, Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Um Lula revivido por Trump vem ganhando terreno, mas é sempre importante lembrar que ele terá 81 anos nas eleições de 2026, e a recordação de Joe Biden, que teve de desistir da disputa presidencial por problemas de saúde relacionados à idade avançada, é uma sombra sobre a candidatura do ex-metalúrgico (apesar de ele ser apenas alguns meses mais velho que Trump).
Especialistas indicam que, de modo geral, o eleitorado brasileiro está dividido entre um terço que apoia a direita e um terço que apoia a esquerda. Os 30% restantes são o elemento central da equação. Estima-se que, desse grupo, dois terços se absteriam de votar, e os 10% restantes seriam swing voters, que poderiam pender para qualquer um dos lados. Lula tem um piso alto, mas um teto baixo, já que quase metade do eleitorado reitera consistentemente que não votaria nele. Já o bolsonarismo se tornou uma herança tóxica para muitos de seus aliados: atrai votos, mas repele alianças. Portanto, a eleição de 2026 provavelmente será acirrada. Ganhará o voto dos indecisos quem conseguir se conectar com os cidadãos, mostrando-lhes um caminho para uma vida melhor, e não apenas agendas abstratas em favor da institucionalidade e da promoção da democracia.
No âmbito econômico, a reforma tributária, considerada a mudança mais significativa no sistema tributário das últimas décadas, entrou em vigor em janeiro de 2026 com a implementação experimental da Contribuição sobre Bens e Serviços (cbs) e do Imposto sobre Bens e Serviços (ibs). Isso poderá levar a uma redução da pesada carga de impostos suportada por empresas, trabalhadores e consumidores. Espera-se que o pib continue crescendo, com uma provável redução nas taxas de juros, o que afeta diretamente os cidadãos comuns. No entanto, a inflação anual persistente em torno de 5% está impactando as receitas do governo e continua sendo um desafio que precisa ser enfrentado.
Os indicadores sociais, em particular a redução da pobreza e da pobreza extrema, devem continuar melhorando, com a criação de mais empregos e o aumento da renda média. A segurança pública, o controle dos gastos e a saúde continuam sendo o calcanhar de Aquiles do atual governo, e a sociedade em seu conjunto exige reformas profundas nessas áreas.
Para concluir nosso balanço, na véspera do 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, Lula se reuniu em um churrasco informal com o ministro da Defesa, os atuais comandantes militares e os ex-comandantes de seus mandatos anteriores. Na agenda, naquele que o Ministro Múcio chamou de «encontro entre amigos», figurava um pedido de um plano estratégico de defesa para os próximos 20 anos, levando em conta os atuais movimentos tectônicos no sistema internacional. Na prática, tratou-se de uma demonstração de apreço institucional às vésperas do julgamento de Bolsonaro e de militares conhecidos por seu envolvimento em tentativas de golpe de Estado, e uma forma de tentar apaziguar as tropas tendo em vista o próximo período eleitoral. O rápido reconhecimento da vitória por Biden em 2022, assim como suas mensagens diretas e indiretas de que qualquer tipo de ruptura institucional levaria à cessação de toda a cooperação militar com os eua, desempenhou um papel significativo para garantir a posse de Lula. Com Trump na Casa Branca até 2029, o panorama muda substancialmente.
Em suma, nesta breve avaliação com as perspectivas para 2026, acreditamos que muito provavelmente teremos um ano marcado pela normalidade institucional, sem grandes sobressaltos, aguardando o resultado da candidatura de Flávio Bolsonaro. Os âmbitos econômico e social, apesar dos desafios e das crises ocasionais, devem, em geral, continuar apresentando números e indicadores positivos. A questão militar entra como uma variável sem resolver, mas por ora pacificada com sinais orçamentários e planos de defesa mais sólidos. A disputa presidencial já começou e, de fato, estende-se a todas as áreas da vida política, econômica e social do país, sob a sombra da polarização.
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1.
Camila Rocha, Esther Solano e Jonas Medeiros: The Bolsonaro Paradox: The Public Sphere and Right-Wing Counterpublicity in Contemporary Brazil, Springer, Londres, 2021; Felipe Nunes e Thomas Traumann: Biografia do abismo: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil, Harper Collins Brasil, Rio de Janeiro, 2023; Jessé Souza: O pobre de direita: a vingança dos bastardos, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2024.
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2.
Polícia Federal: «Polícia Federal desarticula organização criminosa que planejou Golpe de Estado», 19/11/2024.
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3.
Amanda Carolina Barrenengoa e Nastasia Barceló: «La política exterior brasileña en relación al Sur global como práctica internacional (2003-2011). La autonomía como elemento constitutivo de la identidad internacional de Brasil» em Estudios Avanzados N° 35, 2021.
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4.
MapBiomas: «Mapa das coleções», 17/9/2025.
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5.
Vinícius Neder: «Em meio ao tarifaço de Trump, China faz do Brasil seu 2° principal destino de investimentos» em O Globo, 22/8/2025; «China mira Brasil com investimentos bilionários até 2032» em cnn Brasil, 29/8/2025.
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6.
Esse movimento se espalhou para outras organizações militares em todo o país, sem que nenhuma autoridade civil ou militar jamais o desautorizasse.
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7.
O deputado federal Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (abin); o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal; o general Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (gsi); o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante ordens de Bolsonaro (acusado colaborador); o ex-presidente da República Jair Bolsonaro; o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro de Defensa; e o general da reserva Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e da Defesa. stf: «stf condena os oito réus do Núcleo 1 da ação por tentativa de golpe de Estado», 11/9/2025, disponível em https://noticias.stf.jus.br/
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8.
Elisa Clavery, Julia Lindner e Fernanda Rouvenat: «Centrão admite que anistia comece pelo Senado e não beneficie Bolsonaro; oposição rejeita e quer perdoar atos desde 2019» em G1, 4/9/2025.
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9.
Marcio Aith: «Eleições 2026 vêm com a aritmética da incerteza» em Poder 360, 4/11/2025.
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10.
«Quaest: com 48%, aprovação do governo Lula chega ao melhor patamar em 2025» em cnn Brasil, 8/10/2025; «Aprovação do governo Lula cresce e volta a superar desaprovação, diz AtlasIntel» em Carta Capital, 17/9/2025.
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11.
«Datafolha: Lula tem 46% e Flávio Bolsonaro 43% das intenções de voto no 2º turno, diz pesquisa» em g1, 7/3/2026.
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12.
Guilherme Neves e Lu Aiko Otta: «Após 2 anos, série de exceções enfraquece arcabouço fiscal» em Valor Econômico, 29/9/2025.
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13.
«36% dos brasileiros fazem apostas em bets, diz PoderData» em Poder 360, 2/10/2025.
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14.
Ian Reis, José Eduardo Bernardes e Larissa Bohrer: «Avanços sociais marcam dois primeiros anos do governo Lula 3, com expectativa de melhora até 2026, aponta pesquisador» em Brasil de Fato, 22/8/2025.
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15.
Fundação Perseu Abramo: «Políticas sociais do governo Lula tiram 14 milhões da pobreza em dois anos», 9/9/2025.
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16.
Jorge Meza: «O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome» em O Estado de S. Paulo, 4/8/2025.
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17.
Luís Alexandre Fuccille: «As relações civis-militares no Brasil ontem e hoje: muito por fazer!» em João Roberto Martins Filho (ed.): Os militares e a crise brasileira, Alameda, São Paulo, 2021.
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18.
Cléber Lourenço: «Coronel da pmdf desmente general Arruda e diz que ele impediu polícia de prender golpistas em 8/1» em icl Notícias, 23/5/2025; Felipe Pontes: «No stf, general diz que barrou pm no 8/1 para ‘coordenar’ prisões» em Agência Brasil, 22/5/2025.

