Tribuna regional e global

Velhas e novas direitas religiosas na América Latina Os evangélicos como fator político

A América Latina tem uma longa tradição de presença evangélica, mas nas últimas décadas esta deu um salto significativo, especialmente em sua versão neopentecostal. Esse crescimento fortaleceu a sua capacidade de influência na agenda pública através de partidos evangélicos ou, mais frequentemente, por meio de associações «pró-vida» e «pró-família». Enquanto no início do século xx a agenda evangélica lutava pela separação entre Igreja e Estado, hoje suas posturas contra o avanço da «agenda gay» e da «ideologia de gênero» aproximam estes grupos aos conservadores católicos na luta contra as mudanças liberalizantes na família e na sociedade.

Velhas e novas direitas religiosas na América Latina / Os evangélicos como fator político

Nota: Tradução de Carmen Carballal. A versão original deste artigo em espanhol foi publicada em Nueva Sociedad No 254, 11-12/2014, disponível em www.nuso.org

As expressões politicamente conservadoras do movimento evangélico na América Latina ganharam notoriedade nos últimos anos, especialmente em sua persistente luta – em parceria com a hierarquia católica – contra a descriminalização do aborto e o casamento igualitário. Até agora, grande parte da análise social concentrou-se mais em descrever esse fenômeno do que compreender qual é a sua dinâmica. Foram feitos alguns esforços para estudar seu discurso1 e sua identidade2, mas o que domina é o tom descritivo.

O propósito deste artigo é avançar na compreensão: a) dos processos históricos que moldaram esta presença evangélica conservadora em espaços públicos; e b) da forma pela qual os atores religiosos estabelecem um «cosmos sagrado» e como esta construção é a base para assumir posições políticas. Diz-se que as posições dos evangélicos politicamente conservadores têm sua base em processos de construção do seu «cosmos sagrado», gerando neles afinidades com discursos refratários à mudança social.

Ao tentar oferecer uma visão panorâmica sobre as posturas conservadoras no movimento evangélico latino-americano, é inevitável uma perspectiva um tanto esquemática que simplifica as nuances e as complexidades do fenômeno. Entretanto, recorre-se a esta perspectiva com o objetivo de facilitar uma primeira aproximação global a essa problemática.

A longa presença evangélica em espaços políticos da América Latina

De forma esquemática, é possível distinguir quatro etapas da presença evangélica em espaços políticos da América Latina: a) a luta pela liberdade de consciência no final do século xix e início do século xx; b) a polarização ideológica nas décadas de 1960 e 1970; c) a emergência de «partidos políticos evangélicos» na redemocratização dos anos 80 e 90; e d) os movimentos «pró-família» e «pró-vida» de início do século xxi.

A luta pela liberdade de consciência no início do século xx. Com um caráter marcantemente liberal, o protestantismo do final do século xix e início do século xx envolveu-se na luta pela separação entre a Igreja católica e o Estado e pela liberdade de consciência. Através da imprensa, importantes representantes evangélicos tomaram a palavra no debate sobre o Estado laico. Em uma parceria com os partidos liberais no poder, ajudaram a limitar a influência da Igreja católica e a eliminar alguns dos seus privilégios jurídicos3. Nesses anos, os setores que aderiam ao protestantismo eram principalmente os segmentos sociais em transição: pequenos comerciantes e artesãos, profissionais liberais e imigrantes europeus4. O tradicional cosmos sagrado católico, herdeiro da Colônia, não dava mais sentido às suas relações econômicas e sociais mutáveis. Assim, eles encontraram no protestantismo a oportunidade de dar um novo significado religioso ao seu mundo por meio de dinâmicas de racionalização e individualização de acordo com a sua inserção competitiva nos mercados urbanos.

As igrejas protestantes precisavam de espaços culturais, legais e políticos que permitissem ao indivíduo maiores liberdades em suas opções não somente religiosas, como também econômicas e sociais. E não foi por acaso que estas demandas se projetaram no âmbito público e no debate político de então, apontando para um Estado laico. Durante esses primeiros anos, a presença evangélica em espaços políticos pode ser caracterizada, em termos gerais, como «progressista».

A polarização ideológica das décadas de 1960 e 1970. As igrejas evangélicas na América Latina não ficaram alheias à polarização ideológica dos agitados anos 60 e 70. Embora um pequeno segmento tenha se comprometido com a luta pelos direitos humanos e pelo socialismo, contribuindo para o desenvolvimento da Teologia da Libertação, a maioria assumiu uma postura passiva e legitimadora das ditaduras de então5.

A inicial industrialização da América Latina após a crise dos anos 30 e até os anos 50 e 60 teve duas consequências que nos interessam: por um lado, ampliou as classes médias; por outro, promoveu uma maciça migração rural para as cidades6. Esses vastos setores sociais em transição precisavam de novas bases interpretativas que dessem sentido às suas mutáveis condições de vida. Neste contexto, as igrejas evangélicas se multiplicam7. Nelas, do cosmos sagrado baseado na liberdade individual do protestantismo liberal de início do século xx se passa, por um lado, à construção de um cosmos centrado na obediência, na ordem e na disciplina (em estratos urbanos empobrecidos) e, por outro, a um cosmos festivo e efervescente em busca de reconhecimento (principalmente entre imigrantes rurais que engrossam o crescente movimento pentecostal)8.

Estes espaços religiosos, cujos integrantes desenvolvem predisposições de trabalho e disciplina que os ajudam a se integrarem ao mercado de trabalho, promovem também uma postura «passiva» ou «desinteressada» na «política»9, ou seja, uma atitude de não confrontação com o poder político e econômico. Proliferam, então, discursos religiosos de «obediência às autoridades» e de «trabalho responsável». Em sua grande maioria, a partir da passividade, as igrejas evangélicas aceitaram os regimes militares de então como sendo a melhor opção.

Redemocratização e partidos políticos confessionais nos anos 80 e 90. A redemocratização e a «década perdida» dos anos 80 se entrecruzam na América Latina. A crise econômica resulta em instabilidade profissional, familiar e, portanto, existencial10. Milhares de pessoas entram para as igrejas evangélicas, principalmente, com uma orientação emotivo-efervescente de caráter comunitário (pentecostais) ou de caráter individual intimista (neopentecostais). A motivação central para a entrada nestas comunidades de fé é «recuperar» a estabilidade emocional e manter «unida» a família tradicional (nuclear, heterossexual e patriarcal), ameaçada pelas mudanças sociais e culturais de final do século11.

  • 1.

    Laura Fuentes: «Afirmar la autonomía reproductiva en la disidencia religiosa» em Íconos No 45,

    1/2013, pp. 59-74.

  • 2.

    Marcos Carbonelli, Mariela Mosqueira e Karina Felitti: «Religión, sexualidad y política: inter- venciones católicas y evangélicas en torno al aborto y el matrimonio igualitario» em Revista del Centro de Investigación No 36, 7-12/2011, pp. 25-43.

  • 3.

    Carlos Mondragón: «Protestantismo y poder en América Latina. Minorías religiosas, laicismo y cultura política» em Espacios de Diá- logo No 2, 4/2005, pp. 93-114.

  • 4.

    Jean Pierre Bastian: La mutación religiosa de América Latina, Fondo de Cultura Económica, México, df, 1997.

  • 5.

    Jean Pierre Bastian: La mutación religiosa de América Latina, Fondo de Cultura Económica, México, df, 1997.

  • 6.

    A partir de 1930, a expansão urbana na América Latina se acelerou. De 1940 a 1960, a população urbana aumentou de 33% para 44%. Em 1990, a proporção chegou a 72%. Ver Alan Gilbert: «El proceso de urbanización» em Gregorio Weinberg (dir.): Historia general de América Latina vol. 8, unesco / Trotta, Paris -Madri, 2008, pp. 129-149.

  • 7.

    e até a crise de 1930 o movimento evangé- lico era minúsculo na maioria dos países da América Latina, a partir das mudanças sociais geradas por essa recessão ocorre um cresci- mento exponencial de agrupamentos evangé- licos. De menos de 2% da população, passam a ser, em 2013, de 5% (no Paraguai) a 40% (na Guatemala), com porcentagens significativas em grande parte da América Central (de 30% a 40%) e em alguns países da América do Sul, como o Chile (25%) e o Brasil (21%). Trata-se de um crescimento paralelo à constante di- minuição de católicos, que, de mais de 95% antes de 1930, diminuíram em 2013 para 67% da população, em um continente tradicional- mente considerado «católico». Corporación Latinobarómetro: Las religiones en tiempos del papa Francisco, Corporación Latinobarómetro, Santiago do Chile, 16 de abril de 2014.

  • 8.

    David Martin: «Otro tipo de revolución cultural. El protestantismo radical en Lati- noamérica» em Estudios Públicos No 44, primave- ra de 1991, pp. 39-62. O movimento pentecostal é a expressão majoritária entre as comunidades evangélicas na América Latina. É caracteri- zado por uma espiritualidade fundamental- mente emotiva, com experiências extáticas durante o culto (dom de línguas, curas mi- lagrosas, danças etc.) e por sua cultura com predomínio da oralidade, que lhe permite se adaptar aos diferentes contextos sociocultu- rais do continente.

  • 9.

    Em seu clássico estudo sobre o pentecos- talismo chileno, Christian Lalive d’Epinay denomina esta postura política como «greve social». C. Lalive d’Epinay: El refugio de las masas. Estudio sociológico del protestantismo chileno, Editorial del Pacífico, Santiago do Chile, 1968.

  • 11.

    Heinrich Schäfer: «La generación del sen- tido religioso: Observaciones acerca de la di- versidad pentecostal en América Latina» em Daniel Chiquete e Luis Orellana (eds.): Voces del pentecostalismo latinoamericano iii: teología, historia, identidad, emw / cetela, Santiago do Chile, 2009, pp. 45-72.