Conjuntura

«Trumponomics»: neoliberalismo neoconservador disfarçado de circo antiglobalização

Uma chave do sucesso político de Donald Trump tem sido sua farsa de ser pró-trabalhador, quando seu verdadeiro interesse econômico é exatamente o oposto. Isso cria um conflito entre seus interesses políticos e econômicos. Ele criticará fortemente a globalização, mas suas ações não serão tão fortes quanto suas ameaças porque a globalização aumentou os lucros das empresas. Trump expressa tendências unilateralistas neoconservadoras que não são aberrações políticas temporárias e pontuais. Antes, refletem características intrínsecas da política de governo dos Estados Unidos.

«Trumponomics»: neoliberalismo neoconservador disfarçado de circo antiglobalização

Um elemento-chave do sucesso político de Trump tem sido seu disfarce de pró-trabalhador, o que inclui posar de antiglobalização. No entanto, seus verdadeiros interesses econômicos são exatamente opostos. Isso cria um conflito entre os seus interesses políticos e econômicos. Compreender a equação desse conflito é fundamental para entender e prever a política econômica de Trump, em especial sua política econômica internacional.

Como parte de seu disfarce de pró-trabalhador, Trump montará um circo antiglobalização, mas suas ameaças não serão tão graves porque a globalização neoliberal aumentou os lucros das empresas, o que está em conformidade com seus interesses econômicos. Ele também alimentará a política racista de imigração de sua base política, desde que isso não acarrete um impacto adverso sobre a lucratividade empresarial.

Por fim, Trump expressa tendências unilateralistas neoconservadoras que «pegam bem» com boa parte do eleitorado norte-americano. Seu unilateralismo neoconservador não é uma aberração política temporária e pontual. Na verdade, reflete características intrínsecas e duradouras da política de governo (polity) dos Estados Unidos. Isso tem profundas implicações para a ordem das relações internacionais e é algo que os governos de outros países podem ainda não ter compreendido.

Como Trump obteve sucesso

O sucesso político de Trump foi baseado em um ataque em dois flancos do establishment. Primeiro, ele intensificou a agenda de valores culturais «iliberais» republicanos existente até degradá-la em um nacionalismo autoritário racista. Em seguida, capturou a crítica progressista contra a economia neoliberal, em especial a crítica à globalização.

Essa exacerbação da agenda dos valores culturais iliberais permitiu a Trump alijar o establishment republicano. Seu extremismo o fez saltar para o começo da fila republicana, algo fundamental durante o processo das primárias, já que estas envolvem os eleitores mais extremados. Contudo, seu nacionalismo racista tem um apelo político ainda mais amplo porque o racismo vai muito além da base republicana, ao passo que o nacionalismo tem apoio do establishment bipartidário.

O outro lado do êxito de Trump foi sua captura da crítica progressista contra a economia neoliberal. Há quatro décadas a economia americana vem enganando o eleitorado da classe trabalhadora via estagnação salarial e perda de empregos industriais. Isso criou descontentamento e frustrou expectativas. Trump tirou proveito dessa situação disfarçando-se de crítico da economia neoliberal e prometendo fazer a economia funcionar para a classe trabalhadora dos eua.

Nesse tocante, sua captura do debate em torno da globalização e da desin-dustrialização é particularmente importante. Isso se deve a que a globalização e a desindustrialização são a face mais pública da economia neoliberal, onde o impacto nos salários e empregos tem sido mais visível e tangível. Ao se apropriar de maneira convincente da crítica da globalização – através de críticas contra o offshoring [exportação de postos de trabalho], a China e tratados comerciais como Acordo de Livre Comércio da América do Norte (nafta, na sigla em inglês) e a Parceria Transpacífico (tpp) –, Trump ganhou credibilidade para sua alegação de estar do lado das famílias trabalhadoras.Democratas do establishment deram a Trump a abertura para capturar o debate da globalização ao insistir na tpp, apesar da oposição generalizada dos eleitores. E a culpa por esse fato recai, em especial, sobre o ex-presidente Barack Obama. Essa captura permitiu a Trump criar uma narrativa nova e retorcida sobre a globalização neoliberal, que culpa «estrangeiros e imigrantes».

O relato de Trump é o de que os eua são uma vítima. O país teria supostamente negociado acordos comerciais fracos, e os estrangeiros teriam agido desonestamente e se aproveitado desses acordos. Ao mesmo tempo, imigrantes ilegais inundavam o país, tomavam os empregos dos norte-americanos e faziam os salários cair. Mas a realidade é que a globalização foi Made in usa pelas empresas e em benefício das empresas, que trabalharam em conjunto com o Congresso e sucessivos governos.

A nova narrativa de Trump sobre a globalização centrada em «ponha a culpa nos estrangeiros e imigrantes» complementa e nutre sua agenda de valores culturais racistas e nacionalistas. A suposta culpa dos estrangeiros e imigrantes pelas dificuldades econômicas dos trabalhadores norte-americanos fornece a lógica de suas políticas xenófobas.

Em suma, Trump obteve êxito em sobrepujar o establishment republicano ao flanqueá-lo com sua agenda de valores culturais nacionalistas e racistas e ao flanquear o establishment democrata com sua retórica econômica antiglobalização. Essas duas manobras constituíram uma estratégia política coerente que permitiu a Trump conectar-se com o eleitorado reacionário, ao mesmo tempo em que fingia estar do lado dos trabalhadores.

Engodo e substituição: antiglobalização como engodo, neoliberalismo como substituto

A representação de Trump de estar do lado dos trabalhadores está em completa contradição com seus próprios interesses de homem de negócios bilionário cuja medida do sucesso é dinheiro e riqueza, e que é destituído de vocação caridosa ou noções de serviço público. A realidade é que ele está empenhado em um habilidoso golpe («engodo e substituição») próprio de um vigarista.

O engodo foi sua crítica contra o establishment econômico e a globalização, além do malefício que ambos causaram aos eleitores da classe trabalhadora. A substituição foi que, em vez de reformar a economia neoliberal, Trump usa o racismo, o nacionalismo e o autoritarismo como substitutos, ao mesmo tempo em que dobra a aposta na política econômica neoliberal.

Dada sua carência de um histórico em cargos de governo, Trump conseguiu de início dar-se bem com seu disfarce pró-trabalhador. Contudo, as realidades das políticas econômicas de Trump agora se mostram claras. Todas as evidências sugerem que ele pretende piorar a propensão da economia neoliberal de entregar estagnação salarial e desigualdade de renda aumentando o poder do empresariado e das finanças e intimidando e dividindo os sindicatos.