Tribuna regional e global

Podemos e o «populismo de esquerda» Rumo a uma contra-hegemonia a partir do sul da Europa?

O Podemos é uma nova formação política que aproveitou a janela de oportunidade aberta pela crise e foi capaz de sacudir o tabuleiro político espanhol com consequências imprevisíveis. Pela primeira vez em décadas, uma esquerda acostumada com a derrota encontra um discurso para desafiar uma maioria social. Ainda que o partido de Pablo Iglesias enfrente hoje obstáculos para o crescimento vertiginoso manifestado em seus primeiros meses, os resultados históricos obtidos por candidaturas cidadãs apoiadas pelo Podemos em cidades como Barcelona e Madri mostram que a fissura aberta pela crise na política espanhola não foi fechada.

Podemos e o «populismo de esquerda» / Rumo a uma contra-hegemonia a partir do sul da Europa?

Nota: Tradução de Luiz Barucke. A versão original deste artigo em espanhol foi publicada em Nueva Sociedad No 258, 7-8/2015, disponível em www.nuso.org.

Em 17 de janeiro de 2014, em um pequeno teatro localizado no centro de Madri, foi apresentada uma iniciativa cidadã orientada a lançar uma nova candidatura às eleições para o Parlamento Europeu. Sua liderança visível era Pablo Iglesias, um professor de Ciências Políticas de 36 anos bastante conhecido entre os movimentos sociais madrilenhos, que nos meses anteriores havia obtido certa notoriedade por suas aparições em programas de televisão de grande audiência. Iglesias não apresentou um partido nem uma coalizão tradicional, mas sim o que definiu como «um método participativo aberto a todos os cidadãos». Cinco meses mais tarde, e depois de uma extraordinária ascensão, o Podemos se transformava na grande surpresa das eleições europeias ao obter 8% dos votos e eleger cinco deputados. Ainda assim, Iglesias disse que não considerava satisfatórios os resultados: «Avançamos muito e surpreendemos a casta, mas a tarefa que se apresenta para nós a partir de amanhã é enorme (…). O Podemos não nasceu para desempenhar um papel de observador; nascemos para ganhar e vamos ganhar»1. Não era uma bravata. Poucos meses depois, o Podemos se tornaria o primeiro partido em intenção de voto nas pesquisas.

Em seu ano e meio de existência, essa formação revolucionou a vida política espanhola. Seu principal mérito foi vencer o impasse a que pareciam ter chegado as mobilizações populares produzidas no calor do 15-m e, de forma mais geral, superar as limitações tradicionais da esquerda, oferecendo uma expressão eleitoral de sucesso à onda de mudança. O movimento dos indignados havia conseguido articular o mal-estar difuso provocado pela crise político-econômica com um discurso democratizante que questionava os consensos sobre os quais se estruturou a hegemonia das elites econômicas e sociais espanholas durante as últimas décadas. Mas ele não foi capaz de desenvolver formas de organização duradouras nem pôde deter os cortes impostos pelo «austericídio». E os partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais também não pareciam capazes de transformar essa indignação em uma ferramenta de mudança institucional. O perigo intuído no final de 2013 era que esse impasse desse lugar a um encerramento da crise «pelo alto» que preservasse o status quo. A irrupção do Podemos alterou completamente esse cenário, escancarando a janela de oportunidade entreaberta e obrigando todos os atores a se posicionarem diante de seu surgimento. Mas o Podemos transformou a paisagem política não só da Espanha; também trouxe à luz oportunidades, dilemas e perigos que afetam toda a esquerda europeia. No melhor dos cenários, ele poderia anunciar, juntamente com o Syriza, a construção de um polo de antagonismo à União Europeia neoliberal a partir dos países do sul do continente.

A crise do «regime de 78» e o fim do milagre espanhol

Somente é possível entender o labirinto político espanhol à luz da profunda crise econômica vivida pelo país de 2008. O estopim da crise das hipotecas subprime exerceu um violento impacto na economia espanhola, que havia vivenciado uma enorme bolha imobiliária ao longo de toda a década anterior. A ilusão de que se tratava de um choque temporário, depois do qual retornaria a belle époque neoliberal, logo se desfez. Nos últimos quatro anos, a taxa média de desemprego tem sido de quase 25%, mais da metade dos desempregados estão desocupados por um longo período, e cerca de um milhão vive em lares onde todos os membros estão sem emprego. A desigualdade cresceu a um nível superior ao de qualquer país da Europa, a taxa de pobreza está em torno de 20%, e têm ocorrido quase cem mil despejos anuais2. Se o boom imobiliário arruinou a paisagem natural, a crise arrasou a paisagem social.


Mas a crise econômica se transformou em uma crise política. Nos últimos cinco anos, os cidadãos começaram a questionar não apenas um ou outro dos grandes partidos (Partido Popular [pp] e Partido Socialista Operário Espanhol [psoe]), mas todo o conjunto de atores e instituições que compõem o regime político, cujos déficits democráticos foram destacados pela crise e por contínuos escândalos de corrupção (o gráfico menciona alguns indicadores). Da mesma forma, disseminou-se um difuso sentimento antipolítico, ideologicamente transversal, cujo melhor exemplo talvez seja a ampla difusão que teve nas redes sociais um boato completamente falso: que na Espanha havia 445.568 políticos.

O que se encontra em crise é o chamado «regime de 78» (devido ao ano de aprovação da Constituição espanhola): um conjunto de consensos políticos, econômicos e culturais que nasceram com a transição democrática na Espanha e permitiram às elites econômicas e políticas administrar durante três décadas com relativo sucesso os conflitos trabalhistas, territoriais e culturais. Entre 1975, com a morte do ditador Francisco Franco, e 1982, quando o psoe teve sua primeira vitória eleitoral, consolidou-se uma estrutura de poder que traçou a fronteira do que era considerado politicamente viável, limitou o processo de democratização das instituições políticas espanholas e impediu um desenvolvimento mais igualitário. Essa estrutura de poder se reproduziu durante as décadas posteriores sob os governos do psoe e do pp.

Os governos do psoe (1982-1996) consolidaram o modelo da transição. Foi uma longa hegemonia política que terminou de moldar o país e que pode ser considerada um exemplo pioneiro da alternativa social-democrata ao neoliberalismo. Quase desde seu primeiro dia, o governo de Felipe González guardou em uma gaveta seu programa keynesiano e colocou a política econômica nas mãos de dois ministros ligados às elites bancárias – Miguel Boyer e Carlos Solchaga. O resultado foi a aplicação de receitas ortodoxas de ajuste e redução da inflação de forma muito mais decidida do que em outras experiências do sul da Europa3. Com uma taxa de desemprego acima de 20%, a Espanha se tornou um laboratório neoliberal e, embora tenham sido introduzidos avanços no desenvolvimento de um incipiente Estado de bem-estar, eles foram notavelmente tímidos4.

  • 1.

    Discurso disponível em <www.rtve.es/ alacarta/videos/especiales-informativos/ podemos-se-convierte-cuarta-fuerza-parlamen taria-elecciones-europeas/2581640/>.

  • 2.

    Os dados são do Instituto Nacional de Esta- tística (ine), salvo o referido à desigualdade, que é do relatório do Fundo Monetário Interna- cional (fmi): Fiscal Policy and Income Inequality, imf Policy Paper, 23/1/2014; e os dados sobre o número de despejos, que é uma estimativa da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (pah).

  • 3.

    Wolfgang Merkel: ¿Final de la socialdemocra- cia? Recursos de poder y política de gobierno en los partidos socialdemócratas en Europa Occidental, Alfons el Magnànim, Valência, 1995.

  • 4.

    4. O gasto social cresceu mais durante os sete anos de governos de centro-direita (de 11,7% a 17,7% do pib, entre 1975 e 1982) do que nos 14 anos de governos socialistas (de 17,7% a 21,5%). Ver Sergio Espuelas Barroso: «La evolución del gasto social público en España (1850- 2005)» em Estudios de Historia Económica No 63, 2013.