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O país do futuro, visto da Argentina

Como o Brasil é percebido por seu vizinho mais próximo? Que imagens projeta? Qual é a percepção sobre seu futuro? A partir da análise das trajetórias históricas, expressões da cultura política de ambos os países e alguns textos significativos, o artigo identifica traços fundamentais do Brasil – a continuidade do Estado, a persistência da desigualdade, a suposta cordialidade de seu povo – que ajudam a entender a imagem do Brasil que prevalece na Argentina, o que, por sua vez, permite definir melhor a ideia que os próprios argentinos têm de seu país.

O país do futuro, visto da Argentina

A expressão «hermanos argentinos» é utilizada com bastante frequência pela imprensa brasileira. Na maioria das vezes, seu uso carrega uma mordaz carga de ambiguidade: se por um lado expressa afeto ou simpatia, por outro deixa claro um ardente desejo de escarnecer os hermanos, ironizando sua idiossincrasia ou colocando o dedo na ferida de seus defeitos. Essas leves provocações envolvem sinais de identidade: quando são mencionados o «mejor negocio del mundo» ou as paixões futebolísticas, são os traços identitários que estão em jogo. Entre eles, a (suposta ou real) arrogância argentina e a sede de reconhecimento daquele esporte. Embora certamente não haja hostilidade nem rechaço nesse modo de aproximação, este reúne, apesar de tudo, uma carga negativa que, ao que tudo indica, está praticamente ausente nas imagens argentinas sobre o Brasil e os brasileiros, que mudaram sensivelmente nos últimos tempos. Durante décadas, era comum que os argentinos olhassem o Brasil por cima do ombro. Velhos preconceitos e sólidas ignorâncias faziam com que, para um argentino que se gabava por viver num país europeu, branco e culto, com uma ampla classe média, o Brasil pudesse ser contemplado com desdém por ser, supostamente, todo o contrário. No entanto, à medida que o Brasil exibe desempenhos econômicos, sociais e políticos considerados bem-sucedidos, ao mesmo tempo em que a Argentina não consegue tirar os pés do pântano de sua decadência, a percepção argentina muda – e isso nos mostra o quanto as percepções recíprocas se relacionam com as percepções de si mesmos.

A frustração argentina se traduz em ressentimento contra o Brasil? Num âmbito popular, no universo da opinião pública, nada indicaria isso. Há muita frustração com a própria Argentina, mas sua contra-cara é até agora uma espécie de inveja saudável em relação ao Brasil. Um dos principais motivos pelos quais a frustração argentina não se traduz em ressentimento é que, claramente, as imagens espontâneas que muitíssimos argentinos têm sobre o Brasil são boas: evocam o futebol, o carnaval, a beleza, a natureza, a música, a alegria, etc. Essas são as primeiras imagens que a palavra «Brasil» costuma suscitar, antes de pobreza, exclusão, violência, etc. E isso cria, no meu entender, um muro que suporta a frustração e não dá base ao ressentimento. Essa sorte de fascinação não é especulativa; assenta-se sobre as coisas boas que, nos últimos anos, o Brasil pode mostrar: protagonismo internacional construtivo, liderança de sucesso de um presidente de origem humilde, reconhecimento internacional, ampliação da classe média e políticas sociais bem-sucedidas, uma economia que enfrentou o temporal da crise financeira melhor que muitas outras, etc.

Um simples exercício exploratório que levei a cabo em 2009 me permitiu confirmar que isso acontece com as percepções de sentido comum. Quando o Brasil foi mencionado, as palavras que apareceram por livre associação foram: abacaxi, açaí, adversário, afro-latinos, alegria, Amazonas, amizade, aviões, baile, bandeira, beleza, bossa-nova, caipiroska, carnaval, coco, continente, desenvolvimento, desigualdade, despreocupação, diversidade, esforço, interessante, Ipanema, favela, feijoada, frondosidade, futebol, futuro, gols, justiça social, Lula, música, negros, Niemeyer, Ordem e Progresso, orgulho, Pelé, praia, pátria, pobreza, português, potência sul-americana, presidente que eu gostaria de ter, próxima potência, projeto de nação, Rio de Janeiro, Romário, samba, saudade, selva verde, trópico, visão, vitalidade, Xuxa. De todas elas, as que se repetiram com maior freqüência foram bossa-nova, carnaval, futebol, Lula, praia e samba. O predomínio de imagens que evocam espontaneamente um Brasil aberto, diverso e múltiplo, uma pletora de atrativos, é impressionante. Os significantes negativos, como pobreza e desigualdade, aparecem muito pouco. A percepção carregada de certa hostilidade (adversário) se manifestou apenas uma vez. Um humorista argentino de enorme sucesso, Peter Capusotto, diz através de um de seus personagens, cantor espanhol com muitos fãs na Argentina: «Que pena não ter nascido no Brasil… se eu fosse argentino, sentiria inveja do Brasil». Capusotto parece acertar com seu sarcasmo.

Ao mesmo tempo, as percepções de grupos profissionais, que por sua atividade têm visões mais específicas, são convergentes, mas a carga positiva em relação ao Brasil é acompanhada de outra negativa em relação à própria Argentina. Assim, por exemplo, o que os jornais repetem é que «o Brasil já decolou... já não tem sentido nos compararmos com eles, são inalcançáveis». Os cientistas políticos costumam invejar saudavelmente aquilo que consideram um sistema político que funciona, com instituições moderadamente sólidas e partidos políticos que parecem ter conseguido se estruturar. Os empresários cultivam a imagem de uma classe política competente e cooperativa, e os sociólogos, a de uma burguesia nacionalista e responsável (uma «senhora burguesia», como costumam dizer, admirados). O prestígio do setor público brasileiro, cujas capacidades de gestão são reconhecidas, não é novo, e o postulado de uma elite política competente completa essa imagem. Outro traço positivo que lhe conferem é a forte continuidade das políticas públicas. Os internacionalistas, por sua vez, sentem profunda admiração pelo Itamaraty, o excelente corpo diplomático brasileiro, e estimam que o Brasil logrou se desempenhar como ator global, em parte graças ao cultivo, de longa data, de uma condição de soft power. Um survey realizado em 2010 com legisladores nacionais indica que, para 80% deles, o Brasil é o país latino-americano que a Argentina deveria imitar por seu desempenho político, econômico e institucional (o Chile fica em segundo lugar, com 75%, e o Uruguai em terceiro, com 55%).

Essas percepções se aproximam das que o próprio ensaísmo brasileiro, em algumas ocasiões, conseguiu forjar de modo perdurável sobre o Brasil e o modo de ser de seu povo. É o caso de Sérgio Buarque de Holanda, que proclama «a doçura de nosso gênio»1. Ainda mais contundente é a transformação sofrida ao longo do tempo, e sua consolidação no senso comum, da expressão «homem cordial», consagrada por Buarque de Holanda, que perdeu sua conotação crítica e passou a carregar o significado corriqueiro: o brasileiro como uma pessoa cordial. E o mesmo pode-se dizer do caráter brasileiro projetado por Gilberto Freyre2: a passagem do tempo apagou-lhe os contrastes, e costuma-se acreditar que Freyre pintou um Brasil escravocrata idealizado. O resultado é que a imagem distorcida da pintura de Freyre de algum modo impregna as visões brasileiras sobre o Brasil.

  • 1. Raízes do Brasil, ufmg, Belo Horizonte, 1997.
  • 2. Casa-Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal [1933], Global, São Paulo, 2008.