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O Brasil e o BRIC: o questionamento de um conceito

O conceito «BRIC» – o grupo de países integrado por Brasil, Rússia, Índia e China – é uma criação de analistas econômicos que rapidamente se popularizou entre jornalistas e políticos. Já teve conseqüências diplomáticas, com reuniões entre os quatro chanceleres. Este artigo busca uma aproximação crítica ao conceito através da análise das trajetórias históricas, das características econômicas e dos objetivos políticos dos quatro países. Essa indagação revela que, para além da condição comum de potências emergentes, as diferenças são muito relevantes. Finalmente, ressalta-se a importância de que o grupo BRIC assuma uma posição positiva e não se limite a uma agenda puramente defensiva, a fim de avançar no objetivo de aumentar seu protagonismo no sistema internacional.

O Brasil e o BRIC: o questionamento de um conceito

O que são os BRIC? Ou, mais exatamente, o que é o «grupo» BRIC?

O conceito «BRIC» foi cunhado pelo economista Jim O’Neill, da Goldman Sachs, e figurava num estudo intitulado «Building Better Global Economic BRICS». A rigor, o «grupo» BRIC não existia oficialmente, ou sequer informalmente. Mas dado o succès d’estime logrado pelo conceito e o acolhimento obtido pela idéia de um novo conjunto de futuras economias preeminentes, o que ocorreu foi a adoção dessa noção, como correspondendo a uma nova realidade, digna, portanto, de ser contemplada em estudos e formulações sobre as novas relações econômicas. O que é importante sublinhar é que a origem do nome buscava apresentar a idéia de novos fundamentos – bricks, ou tijolos – da futura economia mundial, sem que no entanto esses fundamentos fossem examinados em sua interação recíproca.

Quem são os BRIC? Ou, mais exatamente, o que é cada um deles?

A proposta dos economistas do Goldman Sachs não pode nos fazer esquecer de que estamos falando de quatro países distintos, quatro economias contrastantes e quatro nações com histórias e percursos diferentes, nos planos social, militar, econômico e geopolítico, e nas esferas cultural e religiosa. No plano demográfico, estamos falando dos dois países mais populosos do planeta e de dois outros de populações médias, ainda assim consideráveis. Sozinha, a China representa mais de um quinto da população mundial, seguida de perto pela Índia (17,5%) e, bem mais longe, pelo Brasil (2,9%) e Rússia (2,2%).

Mesmo dispondo de grandes territórios – dos 17 milhões de km2 da Rússia, aos 3,2 da Índia, passando pelos 9,3 da China –, os quatro BRIC diferem entre si no que se refere a recursos naturais, graus de industrialização e capacidade de impacto na economia mundial. É importante registrar tais características, pois a força de um conceito ingenuamente unificador pode fazer com que similitudes indevidas sejam traçadas quanto ao papel dos quatro países na economia mundial, daí redundando conclusões equivocadas quanto ao que esperar de sua presença nos cenários futuros que se possam traçar para o mundo em meados do presente século.

Comecemos pela China. Trata-se da mais antiga civilização contínua da história, não dotada de perfeita unidade política, mas sim de continuidade cultural. Sua história contemporânea é, no entanto, trágica, feita de decadência econômica, instabilidade política, humilhação militar e retrocessos sociais expressos em degradação profunda do tecido social, quando as loucuras do maoísmo levaram o país a uma hecatombe humana, com uma «lacuna» demográfica de dezenas de milhões de pessoas. Marcas desse passado recente são ainda visíveis na sociedade, que emerge de um longo intervalo de declínio e de deterioração da qualidade de vida.

A Índia é a segunda «civilização contínua» mais antiga do mundo, valendo as aspas pela diversidade de culturas e etnias. Não há propriamente uma unidade cultural, e sua história política só parece fazer sentido com base na unidade temporária introduzida por invasões estrangeiras, em especial o império mongol, seguido pela dominação de uma companhia de comércio inglesa, depois convertida em supremacia britânica sobre povos muito distintos entre si. A Índia moderna é uma invenção do império britânico.

A Rússia é também antiga, dotada de tradições culturais que a identificam como unidade cultural desde a Idade Média, quando deslocamentos de bárbaros deram origem a uma nação eslava em processo de homogeneização, a caminho de uma formação nacional. Esta só veio a existir quando Pedro, o Grande, submeteu as autoridades feudais e consolidou seu poder sobre um território indefinido, sob a forma de um Estado incipiente, baseado no conceito de absolutismo imperial. Esse Estado se estendeu ao longo dos séculos XVIII a XX, até atingir o máximo de sua extensão e poderio já sob o domínio dos «czares» soviéticos. O império soviético representou um paradoxo na trajetória da grande Rússia, posto que lhe deu a segurança nacional a que sempre aspirou aquele Estado, ao mesmo tempo em que criou um sistema econômico irracional, o que determinou sua crise estrutural e sua derrocada estrondosa, basicamente por auto-implosão.

O Brasil, finalmente, é uma criação colonial, de lenta constituição de uma economia bem sucedida, no quadro de uma construção estatal mais precoce. De fato, o Brasil teve um Estado unificado antes de ter uma economia integrada. Esse Estado não construiu a nação de modo exclusivo, mas representou um elemento indutor na construção de uma economia industrializada e moderna para os padrões dos países periféricos. Trata-se de um país contente com sua geografia e tranqüilo quanto ao relacionamento regional, o que não é o caso de Rússia, China e Índia, envolvidas em disputas de diversos tipos, nem sempre solucionáveis de modo fácil ou rápido. Esse contexto de paz regional – pelo menos desde o final da Guerra do Paraguai – e de ausência de ameaças externas define o Brasil em sua singularidade geopolítica e deve ser considerado com um ativo no seu processo de inserção regional e internacional.

De onde vieram, o que fizeram até aqui e para onde estão indo os BRIC?

Nos últimos dois séculos, as trajetórias dos BRIC na economia mundial foram desiguais, para não dizer divergentes. Suas relações recíprocas ao longo do último meio século foram, aliás, marginais, com exceção talvez da URSS e da China, na fase da construção do socialismo neste último país.

Quais foram e quais são os centros dinâmicos? E como eles interagiram entre si na construção de uma economia globalizada e cada vez mais abrangente na integração de mercados, na localização de fatores produtivos e na disseminação de tecnologias e circulação de capitais? Eles foram, num primeiro momento, a Inglaterra, país pioneiro na Revolução Industrial e na integração comercial do mundo, e, por outro lado, o mercado financeiro londrino como grande investidor direto e emprestador de última instância. Num segundo momento, o centro se deslocou para os EUA e Nova York, com grande desenvolvimento tecnológico e científico e a disseminação do american way of life.