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Multinacionais brasileiras: opção ou imposição?

A internacionalização das empresas é um fenômeno mundial, que nos últimos anos chegou aos países em desenvolvimento. No caso do Brasil, a internacionalização de suas empresas foi impulsionada pela liberalização financeira e comercial, o aprofundamento da integração no Mercosul, a estabilização macroeconômica produzida pelo Plano Real e as privatizações. Após analisar as causas, o artigo revisa os desafios e obstáculos que as empresas brasileiras enfrentam no exterior.

Multinacionais brasileiras: opção ou imposição?

Introdução

A integração produtiva talvez seja um dos elementos mais marcantes do capitalismo do início do século XXI. O PIB global cresceu 15 vezes entre 1970 e 2007, em termos nominais, e as exportações aumentaram 42 vezes no mesmo período. As cadeias produtivas estão cada vez mais internacionalizadas, promovendo um aumento de 150 vezes nos fluxos de investimento direto no exterior (IDE).

A internacionalização de empresas, segundo Stephen Hymer, é o simples resultado de seu crescimento e da busca de vantagens competitivas em mercados externos. Estas vantagens decorrem do seu poder monopolítico em gerar ou esperar uma lucratividade superior aos custos de operação no exterior. John Dunning aponta um leque amplo de opções para a internacionalização: através das exportações, através do investimento externo direto ou de relações contratuais1. O IED permite atender ao mercado local produzindo diretamente para o consumo interno ou fornecendo matéria-prima para eventuais subsidiárias. Na modalidade de relações contratuais, haveria uma transferência concreta de tecnologias produtivas, marcas ou patentes para outras empresas no exterior, que por contrato assimilariam as regras da empresa transferidora. Para cada modalidade de internacionalização (IED, exportações ou contratos) há benefícios e riscos inerentes. Os custos de entrada e saída do mercado externo devem ser, em qualquer caso, compensados com a expectativa de ganhos derivados ou do monopólio, tecnologia, disponibilidade de capital, recursos gerenciais ou de qualquer outra variável.

A literatura aponta motivações diversas para o processo de internacionalização, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês). Elas seriam: busca de mercados e acesso a consumidores; busca de eficiência na redução de custos, em especial com a força de trabalho; busca de recursos e matérias-primas estratégicas; busca de ativos já existentes através de fusões e aquisições e, por fim, uma série de motivações diversificadas que podem estar relacionadas a objetivos políticos do país, redução de riscos, integração regional, etc2. Além disso, há motivações relacionadas à superação de barreiras tarifárias e não-tarifárias, incentivos dos governos, proximidade do cliente final, saturação do mercado interno e redução de custos domésticos. Em geral, a internacionalização é uma decorrência lógica da maturidade industrial que permite ganhos de produtividade e competitividade necessários para se estabelecer em mercados externos3. Não é por outra razão que o número de fusões e aquisições vem aumentado rapidamente, como mostra o gráfico da página seguinte.

Os benefícios de um processo de internacionalização bem-sucedido são importantes e diversificados: aumento do faturamento, aquisição de novas tecnologias, consolidação da imagem e marca, proteção contra as oscilações da política cambial doméstica, diluição de riscos pela diversificação de mercados, melhores condições de financiamento e maior flexibilidade nas políticas organizacionais e de planejamento estratégico.

A experiência recente de países emergentes

O processo de internacionalização é recente em países emergentes, se comparado às multinacionais europeias e norte-americanas, cuja história de internacionalização se confunde com a expansão do capitalismo industrial desde o século XIX. Os casos de destaque na literatura que analisa os países de industrialização tardia são os «tigres asiáticos», a China e a Índia.

O caso da Coreia do Sul e de Taiwan se tornaram paradigma nos estudos de internacionalização. Após a reconstrução do pós-guerra e das reformas modernizantes impostas pela ocupação norte-americana na região, estes países lograram uma forte industrialização. Uma combinação de governos fortes com grupos privados fortemente incentivados resultou em políticas efetivas de internacionalização. Com mercados internos pequenos e uma tradição comercial já consolidada, estes países desenvolveram políticas industriais voltadas para a exportação. A política industrial incentivava as empresas mais competitivas em troca de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A formação de grandes conglomerados nacionais através de uma política planejada de fusões e aquisições domésticas adquiriu o formato do zaibatsu japonês ou do chaebol coreano.

A China, após as reformas econômicas dos anos 1970, iniciou a experiência de internacionalização atraindo empresas para as zonas econômicas especiais, com vocação exportadora. A partir de 2002, foi lançada a política específica de internacionalização de empresas. A política consistiu na simplificação de procedimentos burocráticos, na realização de inteligência intensiva para identificar oportunidades e nichos de investimento, na orientação e capacitação de investidores e na realização de inúmeros acordos internacionais capazes de garantir os investimentos chineses no exterior e promover as exportações do país, já fortemente competitivas em função do baixo custo de mão-de-obra e do câmbio interno controlado. Em 2007, foi criado um fundo soberano pelo governo chinês com o objetivo de ajudar empresas internacionalizadas.

A China focou na Ásia e na África seus investimentos, concentrando-os no setor petrolífero, na construção civil, no aço e nas telecomunicações. Fica evidente o critério político de prioridades, subordinadas à diplomacia chinesa e seus interesses geopolíticos e militares.

O caso da Índia se notabilizou pelo setor de tecnologia da informação, com grandes centros de televendas, processamento de dados e call centers. Na Índia, o principal atrativo, além de ser um país onde o inglês é amplamente utilizado, foi a simplificação e a facilitação para investidores no exterior. O grande exemplo indiano é o conglomerado Tata Motors, que já fez aquisições de marcas globais como a Jaguar e a Daewoo.

A internacionalização brasileira

Os países em desenvolvimento até a década de 1980 quase não registravam fluxos de saída de IDE, ou seja, investimentos de residentes no exterior. Hoje, a situação mudou: 14% de todo o IDE mundial tem origem em países em desenvolvimento4. A crise mundial de 2007-2008 retraiu o IDE de países desenvolvidos, mas os países em desenvolvimento aumentaram 4,2%, evidenciando o impacto desigual da recente crise internacional. Parece evidente que o grande crescimento das transnacionais brasileiras e dos demais países emergentes está associado aos ganhos de competitividade que estes países lograram conquistar nos últimos 20 anos. Como exemplo, podemos tomar a edição das maiores empresas do Financial Times de 2008, onde figuram já 62 firmas do Brasil, Rússia, Índia e China. Entre as 100 maiores empresas da América Latina, 85 são brasileiras ou mexicanas. Pode-se ver o crescimento do IDE brasileiro em perspectiva no próximo gráfico, com a queda ocasionada pela crise financeira de 20085.

  • 1. «Trade, Location of Economic Activity and the mne: A Search for an Eclectic Approach» em Bertil Ohlin et al. (orgs.): The International Allocation of Economic Activity, Macmillan, Londres, pp. 395-418.
  • 2. «Globalization of r&d and Developing Countries: Proceedings of the Expert Meeting, Geneva, 24-26 January 2005», onu, Nova York-Genebra, 2005.
  • 3. As fases típicas do processo iniciam com as exportações, implantação de escritório comercial e rede de distribuição, depois a criação ou compra de uma subsidiária no mercado local e, finalmente, a produção local. Este roteiro é conhecido como «modelo de Uppsala», em referência à universidade sueca que o popularizou. É simplificado, mas explica a maioria dos casos de internacionalização e sua dinâmica.
  • 4. Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior: ob. cit.
  • 5. Tudo indica que o ide brasileiro se recupera rapidamente. No primeiro semestre de 2010, predominaram as aquisições de controle, fusões e joint ventures. Algumas operações podem simbolizar a retomada do ritmo: a Vale adquiriu 51% da BSG Resources na Guiné, por us$ 2,5 bilhões; o Banco do Brasil adquiriu o controle do Banco da Patagônia, da Argentina; a Heineken adquiriu a mexicana Femsa por us$ 7,7 bilhões (setor de bebidas); a brasileira Cosan (etanol) anunciou uma joint venture com a Shell num negócio de us$ 13 bilhões, entre outros exemplos.