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Integração financeira e internacionalização de empresas brasileiras na América do Sul

Dois processos vêm ganhando relevância nas relações do Brasil com a América do Sul: as iniciativas de integração financeira e monetária e a expansão de grande número de empresas para os países da região. Os dois processos resultam do desenvolvimento da economia brasileira nas últimas décadas e foram estimulados pelo contexto externo singular dos últimos anos. Apesar de sua relevância, os dois processos não foram até hoje incorporados na política e na estratégia externas do Brasil. O momento é propício para avançar no desenho de políticas públicas que apoiem e potencializem as estratégias das instituições privadas ou multilaterais na oferta de soluções financeiras compatíveis com a necessidade de competitividade internacional.

Integração financeira e internacionalização de empresas brasileiras na América do Sul

Introdução

A partir de meados dos anos 1990, as empresas brasileiras incrementaram sua presença na região com um crescente fluxo de investimentos, após um período de forte crescimento das exportações para esses países. Nessa onda de inversão externa aparecem não apenas empresas de grande porte, mas também um surpreendente leque de pequenas e médias empresas, industriais, de serviços e também do setor agropecuário. Esse movimento deve se manter ou mesmo se aprofundar nos próximos anos. Nota-se em muitas empresas brasileiras a disposição de aproveitar o momento relativamente favorável ao Brasil, em meio à crise internacional, para fusões e aquisições em países da região.

As iniciativas de integração financeira são mais recentes, e a postura do governo e dos principais atores privados é menos enfática, ou mais reticente, diante da alternativa de avançar prioritariamente na integração financeira com os mercados internacionais e com os países centrais. O governo mantém posição cautelosa em relação a iniciativas como o Banco do Sul, ou os sistemas de pagamentos em moedas próprias, mais preocupado em aproveitar a situação inusitada de oferecimento de recursos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em plena crise financeira internacional. Para a Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&F-Bovespa), a atração dos mercados internacionais é justificada pelo tamanho reduzido das bolsas e dos mercados de capitais de países da região.

Apesar da relevância que adquiriram, esses processos não foram até o momento incorporados na política e na estratégia externas do país. Apesar da demanda crescente de alguns atores privados favoráveis a uma maior concertação regional, não se encontra opinião favorável na elite política brasileira. Além da pouca tradição na área, a elite política se mostra dividida nesse tema. Parte dela continua atraída pelas perspectivas de ampliar a integração com os países centrais, entendida como opção preferencial. Outra parte, ainda que favorável a um projeto regional mais estruturado, segue reticente em ampliar espaços cooperativos em áreas não tradicionais, como é o caso do tema financeiro e de investimentos. Pequenos avanços têm sido logrados nos últimos anos na movimentação de alguns atores públicos e privados no sentido de estruturar ações no campo financeiro internacional, principalmente em decorrência de demandas pontuais e emergenciais.

Essas movimentações não estão associadas a estratégias internacionais mais amplas e consistentes, nem têm conseguido mobilizar todos os recursos e diferenciais favoráveis que o país dispõe nessa arena. Além disso, ou também por isso, o processo de adensamento das relações econômicas regionais não foi acompanhado por melhorias no campo dos acordos econômicos e das instâncias de convergências regulatórias. Quase não há acordos regionais efetivos no campo da proteção ao investimento, da integração energética, da dupla tributação, da proteção de marcas e patentes, de soluções de controvérsias.

Este ensaio discute alguns aspectos dessas novas agendas do Brasil na região, a partir de reflexões que temos realizado nos últimos anos, algumas das quais já publicadas em trabalhos anteriores. Depois de rápida síntese do momento singular vivido pela economia brasileira, passamos a uma caracterização das posições do país nas iniciativas de integração financeira da região e, em seguida, do processo de internacionalização de empresas brasileiras, para no final apresentar uma análise das dificuldades internas para a articulação dos atores públicos e privados envolvidos nesses processos.

O Brasil na bonança de 2002-2007 e na crise: muitas surpresas

Na origem desses processos está o aprofundamento financeiro e o desenvolvimento da estrutura produtiva no Brasil nos últimos anos. O modelo de abertura seletiva, parcial e diferenciada, definido nos anos 1990, preservou os bancos e fundos que formam o sistema financeiro estatal e elevou fortemente a carga tributária, o que ampliou a capacidade de intervenção do setor público. A prática de juros elevados fortaleceu o sistema bancário e não prejudicou a maior parte das grandes empresas. Sob essa ótica, o modelo de liberalização e de estabilização dos anos 1990 manteve elementos essenciais das estratégias seguidas nos anos da inflação elevada, em que o país conseguiu proteger a estrutura financeira pública e privada, apesar dos impactos violentos da crise da dívida externa.

A economia brasileira sofreu bem menos com a crise internacional do que se esperava e exibe clara tendência de recuperação desde meados de 2009. O impacto inicial da crise foi muito forte, a partir do segundo semestre de 2008. A queda abrupta e acentuada da produção e do emprego, o corte do financiamento externo e a retração do crédito interno reduziram o investimento e as decisões de produção das empresas. Ao contrário de outras crises externas do passado recente, contudo, não se configurou uma crise cambial: apesar da queda das exportações, a balança comercial seguiu superavitária e os ingressos de capitais induziram forte movimento de revalorização do real, depois da forte depreciação do final de 2008. O impacto nas finanças públicas foi pequeno e não houve abalos no sistema financeiro. O governo conservou capacidade de reação suficiente para adotar medidas como corte seletivo de impostos, programas de apoio e de estímulo à economia e redução das taxas de juros.

São sinais de resistência muito superior ao que se poderia esperar. Boa parte da capacidade de reação da economia brasileira se deve a uma combinação de duas ordens de fatores. Pelo lado externo, o país se beneficia tanto pela forma como a crise mundial está sendo enfrentada pelo governo dos Estados Unidos, com a ampla emissão de moeda para sustentar o sistema financeiro, como pela manutenção do crescimento na China. Pelo lado interno, a economia brasileira tem se beneficiado pela capacidade do governo de empreender políticas anticíclicas, com redução de impostos e do superávit fiscal e também com cortes das taxas de juros.