Tribuna global

A Europa e seus inimigos na direita

O populismo de direita coloca em perigo o futuro da União Europeia e as sociedades democráticas que o bloco aspira a criar, baseadas nos direitos humanos. O artigo analisa a crescente influência dos populistas de direita, que já ocuparam cargos ministeriais em diversos Estados membros da ue. Seus slogans antieuropeus, que procuram criar linhas culturais divisórias em vez de incentivar a integração, vêm encontrando uma audiência receptiva entre as novas gerações. Diante disso, o autor diz que é preciso defender a autoimagem da Europa como um continente comprometido com o aprimoramento da sociedade civil e a proteção de direitos sociais.

A Europa e seus inimigos na direita

A Europa está se desintegrando? Uma resposta espontânea poderia ser: «Não, felizmente não está – ainda não». Uma coisa é certa, porém: por toda a Europa, a direita radical está trabalhando precisamente com esse objetivo. Igualmente claro é que o espírito e a coesão europeus hoje estão sob coação, tanto do ponto de vista financeiro e econômico como social.

Em uma conferência organizada pela Fundação Friedrich Ebert (fes) em Berlim em 2013, Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, observou que «a União Europeia sempre foi uma pedra no sapato de direitistas e populistas». Desde então se tornou cada vez mais evidente que os perigos representados à ue pelo campo da direita extremista, neonazista e abertamente antissistema são ainda menos sérios do que aqueles emanados do populismo de direita. Este coloca em perigo todo o futuro da ue, a evolução contínua de suas instituições e o tipo de sociedades democráticas baseadas em direitos humanos que a ue aspira criar porque mais é socialmente aceitável e bem relacionado e, portanto, em melhor posição para influenciar a política tradicional.

O populismo de direita pode ser descrito como um fenômeno produzido pelas crises da modernização da sociedade, isto é, como consequência de múltiplas crises inter-relacionadas afetando a vida econômica, a cultura, a identidade e a representação política. Não há dúvida de que as fronteiras entre o populismo de direita e o extremismo são bastante fluidas, mas os alvos da «demonização» dos populistas de direita são comparativamente flexíveis e, até certo ponto, intercambiáveis. Em especial, eles gostam de demonizar migrantes, o islã e até mesmo a ue, uma vez que todos esses alvos lhes permitem estabelecer linhas culturais contra o que é «estrangeiro» enquanto salientam características «nacionais». Tais técnicas lhes permitem construir ameaças e alimentar teorias conspiratórias.

Em pesquisa realizada pela fes em 2014 (Fragile Mitte – Feindselige Zustände) verificou-se que 44% dos alemães têm visões depreciativas daqueles que buscam asilo, enquanto 18% têm opiniões negativas sobre os muçulmanos; 24% dizem que «a Alemanha estaria melhor sem a ue»; e 55% insistem em que «a Alemanha deve mostrar-se mais dura com Bruxelas». Além disso, nas ruas, na internet e mesmo em boa parte do discurso intelectual, pode-se perceber uma antipatia cada vez mais estridente pela Europa que constitui um dos componentes de um desdém antipolítico generalizado pelas elites. Esta é mais outra característica pan-europeia do pensamento da direita populista, embora na Alemanha esta atitude tenha ficado latente até bem recentemente.

Mas a esta altura ela revelou-se por completo, seja em Heidenau, nas «manifestações do Pegida» ou na política partidária (o partido Alternativa para a Alemanha, afd). A descrição do afd em fóruns públicos como «eurocético» foi por demais condescendente, mesmo antes de seu recente racha. Desde seus primórdios, esse partido representa muito mais do que «mera» polêmica antieuro orientada por princípios radicais de mercado.

Outra constatação do estudo da fes sobre a «Alemanha média» revelou que as perspectivas do extremismo anti-humanitário de direita estão associadas a dúvidas sobre a democracia e a atitudes negativas com relação à ue, «as pessoas que mandam», «os políticos» e «a mídia». Todos esses reflexos antissistema não verbalizados estão concentrados no epíteto «a imprensa mentirosa», enquanto nada se presta melhor à retórica antielitista do que a caricatura dos «burocratas de Bruxelas». Críticas pouco refinadas à Europa também podem ser ouvidas em círculos sociais que são ou deveriam ser pró-europeus, fato que vem a calhar para a extrema-direita. Aqueles que estão tentados a juntarse a esse tipo de antieuropeísmo de bar perdem de vista o fato de que normalmente são os Estados membros – e não as instituições em âmbito europeu, como a Comissão – que obstruem e impedem as ações necessárias e são responsáveis pelos, muitas vezes, verdadeiramente absurdos pseudoacordos que sucedem a noites inteiras de reuniões de cúpula ou por lacunas óbvias, tais como a ausência de políticas europeias uniformes de imigração e asilo. Em seu Der Europäische Landbote (ganhador do prêmio de melhor livro político do ano, sem tradução no Brasil), o autor austríaco Robert Menasse oferece um relato esclarecedor de quão imprecisas são as imagens amplamente compartilhadas dos desastrados burocratas da torre de marfim.

Lamentavelmente, os slogans antieuropeus – muitas vezes disfarçados de comentário étnico-cultural –, que têm por intenção estabelecer linhas culturais divisórias em vez de incentivar a integração, vêm encontrando uma audiência receptiva nas gerações mais novas também. Estas desfrutam dos aspectos prazerosos de uma Europa unida, tais como fronteiras abertas e a oportunidade de desfrutar de diferentes modos de vida, mas de modo geral, pelo menos por ora, fica evidente que ser antiue é que é «estar por dentro». Novos grupos de direita, como os «identitários», tiram proveito dessas atitudes cunhando frases de efeito do tipo «Europa sim, União não» e vendendo a ideia culturalmente racista de uma «Europa dos povos».

Populistas de direita participam do poder

Porém, os inimigos de direita da Europa também podem ser encontrados dentro de suas principais instituições e não apenas em suas franjas. Populistas de direita já foram convidados a aceitar cargos ministeriais e, portanto, a participar do poder em diversos Estados membros. E, quando os chefes de Estado e de governo da ue se reúnem, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, senta-se entre eles. Orbán é um populista de direita que despreza a Europa liberal e que, apoiando-se em sua considerável maioria parlamentar, vem conseguindo incorporar uma porção substancial da plataforma do partido de extremadireita Jobbik ao programa do Fidesz, o seu próprio partido governista. Ele também é um bom amigo da bancada parlamentar da União Social-Cristã da Baviera (csu, na sigla em alemão), onde foi aclamado em recente visita. Por fim, ele tem manipulado as altas e quase não atendidas expectativas da população de seu país de que tornar-se membro da ue traria enormes benefícios econômicos. Orbán gosta que pendurem cartazes exigindo «mais respeito» da ue pela Hungria. Ao mesmo tempo, claro, o governo de Fidesz fica feliz em receber os generosos subsídios ofertados por Bruxelas. Atualmente, na Hungria, a democracia e o Estado de direito são progressivamente esvaziados de diversas maneiras: do cerceamento da liberdade de imprensa a emendas constitucionais que restringem a jurisdição da Corte Constitucional. Esse processo avançou tanto que, hoje, a Hungria não reuniria as condições exigidas para se tornar membro da ue se o pleiteasse.