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Culturas brasileiras no mundo. Do país do samba e da caipirinha a um pólo de inovações culturais contemporâneas

Embora a imagem tradicional do Brasil no mundo seja projetada a partir da caipirinha, do samba e do futebol, na realidade existe muito mais. A enorme diversidade cultural do país tem permitido uma longa série de inovações, algumas alentadas pelo Estado e outras surgidas de maneira espontânea, que contribuem para uma imagem menos estereotipada do Brasil. Das novelas ao AfroReggae, das novidades da internet à São Paulo Fashion Week, o desafio consiste em articular, a partir do governo, os projetos e iniciativas dispersos a fim de explorar um dos grandes capitais do Brasil: sua diversidade cultural.

Culturas brasileiras no mundo. Do país do samba e da caipirinha a um pólo de inovações culturais contemporâneas

País de contrastes sociais, de distâncias econômicas abissais, de diversidade cultural pujante e de natureza ímpar. Para orgulho dos locais, quem visita se encanta, quem conhece não se esquece, conforme constatam pesquisas oficiais. Mas, para visitar e conhecer, é preciso ir além da imagem de samba, futebol e caipirinha, reducionista por excelência de um colosso cultural e que não revela o dinamismo das várias faces da cultura brasileira no palco mundial. A favor da ampliação desse ponto de vista, há uma miríade de inovações culturais paralelas e sobrepostas, que estabelecem pontes entre o Brasil e o exterior, formando uma rede de diálogos contagiante e de envergadura exponencial.

Para abordar estas e outras questões, o presente artigo apresenta três seções: primeiro, um panorama da imagem e da presença da cultura brasileira no exterior (ou das culturas, tendo em vista seu horizonte de diversidade), analisando brevemente a que ponto os retratos do Brasil formam ou não um filme próprio, ao invés de imagens dispersas; diante disso, aprofundar em seguida os caminhos pelos quais um caldeirão de experiências inovadoras consegue levar o local ao global, muitas vezes trazendo o global na bagagem de volta e vice-versa; e, por fim, algumas elucubrações acerca de como novos caminhos tenderão a se desenhar.

Começando: retratos do Brasil

Como a cultura de um país galga fronteiras físicas, emocionais e burocráticas? Como o mapa mental cultural das pessoas amplia-se com o conhecimento da cultura de um país, configurando um novo perímetro emocional individual na dinâmica mundial? As respostas são múltiplas, mas atenhamo-nos a quatro:

- pelos imaginários relativos à sociabilidade e à violência, na música, no cinema e nos noticiários internacionais;- por meio dos turistas de lazer ou negócios, que se convertem em embaixadores privilegiados dos lugares que visitam; - pela circulação internacional dos bens e serviços culturais e das tradições locais, adquiridas ou vivenciadas no exterior, física ou digitalmente; ou ainda por meio de notícias do Brasil veiculadas em outros países; - graças à circulação dos brasileiros, em trânsito ou residentes no exterior, que invariavelmente divulgam sua cultura por seus relatos, atitudes e hábitos.

Sociabilidade e violência. O Brasil é um país-continente, de uma enorme variedade de territórios e culturas. Recorrê-lo e retratá-lo gera uma contraditória colagem, algo como uma colcha de retalhos. Talvez a imagem mais espetacular seja Brasília, hipermoderna «cidade do futuro», como a chamou o crítico de arte Robert Hughes e Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO, 1987) que não representa o passado, mas um projeto de futuro. Face à perda das tradições culturais pelo embate da televisão, o protagonista mais bem-sucedido do filme Bye-Bye Brasil (1979), o acordeonista Ciço, reconverte o forró, tradição do nordeste, fusionando-o com o rock, para entreter os candangos na cidade-satélite onde acabou morando. Poucos anos depois, a informalidade acumulada nesses satélites ameaça a ordem dessa modernidade utópica, ou, nas palavras de uma reportagem do The New York Times, o «Brasil real» demonstrou a insustentabilidade desse pulo desenvolvimentista ao futuro.

Já nesses mesmos anos, os conflitos e a insegurança nas favelas do Rio de Janeiro deslocavam o olhar estrangeiro para uma outra aquarela do Brasil, apresentada por Marcel Camus em Orfeu Negro (1959), cartão postal romântico dos morros para inglês ver, que segundo Diegues mostrava «um Brasil folclorizado, artificial, sem autenticidade». Essa mistura de beleza, sensualidade e ingenuidade, filtrada e espalhada, como disse o sambista Martinho da Vila, na bossa nova da trilha sonora onde se reconvertem a cordialidade (Sérgio Buarque de Hollanda) e a democracia racial (Gilberto Freyre) em um imaginário ao mesmo tempo tradicional e moderno. E esse imaginário atiçou os sonhos de liberdade e desejos de alteridade de inúmeras pessoas ao redor do mundo: na década de 1920, vários intelectuais afro-americanos, entre eles W.E.B. DuBois, acreditaram na democracia racial brasileira até descobrir nas políticas de migração que o Brasil distava muito de ser um paraíso para os afrodescendentes. Mesmo assim, essa imagem perdurou no imaginário global, apoiada sobretudo no tripé de samba, futebol e carnaval. Mais recentemente, Barack Obama mencionou Orfeu Negro em relação à sua mãe, cuja imaginação, segundo ele, foi captada pelas fantasias da felicidade negra, expressa na música e nos bailes. Para ele, como para os críticos do mito racial brasileiro, esses negros felizes e infantis eram simplesmente o reverso dos selvagens escuros de Conrad.Orfeu (1999), Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003) e Tropa de Elite (2007) oferecem o reverso: as favelas são viveiros de violência nas mãos dos comandos narcotraficantes e da polícia. Ademais, os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, em maio de 2006, seguidos pelos ataques no Rio de Janeiro dos comandos contra a polícia e as milícias justiceiras, em dezembro do mesmo ano e janeiro de 2007, ameaçando a cúpula do Mercosul, espalharam imagens de violência ao redor do mundo. As reportagens se referiam à enorme brecha entre ricos e pobres, brancos e negros, asfalto e morro, o norte e o sudeste. A Reuters mantém um alerta e uma cronologia da violência no Brasil, assinalando que o país é o quarto mais violento do mundo, com 45.000 homicídios por ano, ainda que somas, médias e países continentais tenham poucas afinidades.

Ao mesmo tempo, o ativismo cultural de grupos como AfroReggae ou Central Única das Favelas dissemina-se nos jornais e noticiários, junto a reportagens sobre a sua capacidade de negociar com os narcotraficantes e a polícia e, assim, contribuir a uma paz precária. O filme Favela Rising (2005), que narra a história de um dos integrantes do AfroReggae, no contexto da violência e o narcotráfico, ganhou 36 prêmios em festivais internacionais, recebendo muita publicidade. Mas o filme também romantiza a capacidade da cultura e da arte de reduzir a violência. Junto com o rapeiro MV Bill, seu produtor Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares, atual secretário da Valorização da Vida e Prevenção da Violência de Nova Iguaçu (RJ), subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro de 1999 a 2000 e brevemente secretário Nacional de Segurança Pública, o AfroReggae virou uma referência internacional para a segurança de jovens em situações de risco. Este vem sendo noticiado no exterior como um dos mais importantes temas do investimento do Ministério de Cultura, que procura tirar os jovens das circunstâncias que levam à violência.