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Entrevista por Tina Hennecken e Simone Reperger

Entrevista por Tina Hennecken e Simone Reperger

Pacotes de ajuda, bailout (suporte financeiro para evitar um calote nas dívidas), política de austeridade, medo da recessão. A crise econômica e financeira na Europa e suas consequências continuam a nos ocupar e preocupar. As respostas políticas visam, sobretudo, medidas de contenção de custos e consolidação orçamentária – à custa da retomada conjuntural, da restrição de direitos dos trabalhadores e dos cortes nas despesas sociais. Esta política está destruindo empregos e minando o fundamento social das nossas democracias no mundo todo. Nesse contexto, os sindicatos na esfera internacional veem-se confrontados com a tarefa de defender os fundamentos que representam conquistas da luta sindical travada por décadas. A revista NUEVA SOCIEDAD conversou no âmbito do II Congresso da Confederação Sindical dos Trabalhadores e das Trabalhadoras das Américas (CSA) com Michael Sommer, presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI)1 e da Confederação dos Sindicatos Alemães (Deutsche Gewerkschaftsbund, DGB)2, sobre um novo modelo de desenvolvimento, os desafios da política sindical internacional e a América Latina como fonte de inspiração com idéias para uma era pós-neoliberal.O tema do II Congresso da CSA é «Desenvolvimento sustentável, democracia e trabalho decente: Construindo uma nova sociedade». Por muito tempo, o conceito «sustentabilidade» foi mais um chavão do movimento ambientalista do que um lema ou uma reivindicação dos representantes dos trabalhadores. Que papel desempenham os sindicatos na definição da agenda da sustentabilidade hoje em dia?

O conceito da sustentabilidade está apoiado em três pilares: econômico, ecológico e social. O desenvolvimento sustentável não é viável sem política social efetiva e universal e sem trabalho decente. Sustentabilidade significa produtos e serviços duráveis, fabricados e ofertados sem exploração ou destruição do ser humano ou da natureza. Atualmente, os sindicatos lutam não apenas pelos interesses materiais dos seus filiados; eles cada vez mais são chamados a defender conquistas democráticas e sociais fundamentais nos seus países, pois infelizmente os governos e partidos políticos já não são mais capazes de assegurar a primazia da política ante o capital financeiro.

Nós, os sindicatos, defendemos a proteção dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, lutamos pelo direito à liberdade de associação e ao diálogo social justo perante governos e organizações internacionais! A fim de conseguir uma sociedade justa, é preciso questionar o nosso modelo econômico global atual e dar o impulso a um novo modelo de desenvolvimento – um modelo sem desregulamentação, liberalização e privatização. As alternativas óbvias são: conseguir justiça para as pessoas, tratar o meio ambiente com o devido cuidado e respeito, exercer moderação no consumo de bens materiais (em países altamente industrializados), além de eficiência energética e inovação. Quem quiser «economizar» e cortar as despesas com trabalhadores, não terá mão-de-obra qualificada no futuro.

Foi precisamente o receituário político-econômico indesejado de desregulamentação, deixando tudo a cargo do mercado, que preparou o terreno para a crise econômica e financeira mundial em 2008. Será que a política aprendeu algo desde então?

Mesmo na crise econômica e financeira atual na Europa, os governos de muitos países reagem com um contra-ataque generalizado aos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras: convenções coletivas são esvaziadas para reduzir os salários, ingerências na autonomia para negociar convenções coletivas são cada vez mais comuns. Os pisos dos diversos salários mínimos são rebaixados, as jornadas de trabalho prolongadas, a idade de aposentadoria elevada e as aposentadorias reduzidas. Cada vez mais consternados e amargurados, vemos como aplicam os remédios do laboratório de venenos neoliberais, em dosagens cada vez mais fortes: toda hora há novas medidas de austeridade, e elas estão ficando cada vez mais abrangentes.

Como as medidas previstas no Pacto Fiscal da União Europeia?

O gerenciamento da crise é uma vergonha para a Europa e, na nossa perspectiva, é a abordagem completamente errada para superar a crise. Querem nos fazer acreditar que nós é que temos de dar tudo para que mercados e agências de avaliação de risco recuperem a confiança. O mercado, e não o homem, tornou-se a medida de todas as coisas – agora também na Europa. Um mercado que persegue um único objetivo: aumentar a riqueza de poucos e repassar os custos da crise à classe trabalhadora. Mas o que ou quem é o mercado? A quem os governos estão subordinando a sua soberania? São principalmente os bancos e os investidores do mercado financeiro. São eles que se beneficiam dos recursos dos sucessivos pacotes de ajuda e das medidas de socorro, e não as pessoas nos países em crise. O pacto fiscal europeu não cria nem estabilidade, nem ajuda a Europa a sair da crise – mas é, sobretudo extremamente ademocrático. Por isso, não estamos lidando na Europa apenas com uma crise econômica, mas também com uma crise de valores – e isto, aliás, também vale para os Estados Unidos. A política precisa dar respostas a estes desafios, por exemplo, definindo regras claras para os mercados financeiros.

O que seria, então, o remédio correto na opinião dos sindicatos?

Segundo cálculos da Organizaçao Internacional do Trabalho (OIT), mais de 35 milhões de pessoas perderam seus empregos no mundo desde a eclosão da crise em 2008. Na Europa, a taxa de desemprego atinge em média 10,4%, o que representa o nível mais alto dos últimos 14 anos. Criar empregos é o desafio central e geral dos próximos anos. O que precisamos é de EMPREGOS – postos de trabalho decentes, com remuneração adequada, com proteção social – para homens e, principalmente, mulheres. O que precisamos é de um Plano Marshall, um plano que ajude os Estados prostrados e arruinados pela crise a se reerguerem.Precisamos de investimentos em inovação, pesquisa, tecnologia, educação, infra-estrutura e proteção do clima. Um programa de investimento e desenvolvimento deste porte dará um novo impulso ao motor do crescimento, permitindo combater o elevado nível de desemprego e trazendo progresso social. Uma Europa incapaz de gerar bem-estar para as pessoas está condenada ao fracasso.

  • 1. Tina Hennecken: vice-diretora da Fundação Friedrich Ebert (fes) Brasil.Simone Reperger: representante da fes Sindical Regional e da fes Uruguai.Palavras-chave: Confederação Sindical Internacional (csi), unidade sindical, sustentabilidade, crise europeia, emprego, sociedade justa.Nota: tradução de Martina Sayer.. A csi nasceu como contrapeso à globalização do capital em 1º de novembro de 2006 em Viena. A csi surgiu da fusão entre a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (cisl) e a Confederação Mundial dos Trabalhadores de cunho cristão (cmt), além de oito centrais sindicais nacionais, como a Confederação Geral do Trabalho (cgt) da França, que antes não estavam organizadas em confederações internacionais. A confederação está sediada em Bruxelas e representa os interesses de 168 milhões de trabalhadores em 304 organizações/sindicatos filiados de 153 países. Junto com as Federações Sindicais Globais (fsg, também chamadas apenas de Sindicatos Globais, ou seja, as 10 Global Union Federations, gufs) e o Comitê Consultivo Sindical da ocde (tuac), a csi representa o movimento sindical organizado na esfera internacional.
  • 2. A dgb é a maior central sindical da Alemanha, reunindo os sindicatos mais importantes. Aqueles filiados à dbg possuem um total de 6,1 milhões de membros.